domingo, 14 de abril de 2013

Resenha: Sssssss O homem cobra (Sssssss)


Preparam-se, amigos do Café, agarrem suas esperanças e crucifixos, pois a resenha de hoje tratará de algo intensamente sombrio e, ao mesmo tempo, fascinante.... Aquele cujo nome nem Você-Sabe-Quem pronunciaria. Ele, que trouxe à humanidade o conhecimento do bem e do mal, espalhou a música, a arte e a corrupção entre nós, separando nossos espíritos de deus e nos fazendo viver uma existência de sofrimentos miseráveis... Ele, nosso velho conhecido... O progresso.






Título original: Sssssss
Lançamento: 1973 (EUA)
Duração: 99 minutos]
Direção: Bernard L. Kowalski





Sssssss
Atrocidades pelo bem do progresso

Dizendo em poucas linhas, “Sssssss” é um suspense super decente feito lá nos anos setenta, com um roteiro bacaninha que não surpreende muito, mas também não entedia. Ele conta uma história quase familiar sobre dois cientistas, suas ocupações e seus relacionamentos, enquanto, no meio disso, desenvolve uma trama paralela a respeito do homem cobra e seu surgimento. Tudo bastante gradual e paciente (por sinal, até demais), convergente para um final meio maluco que tenta resolver toda a trama acumulada num curto período. Não é uma obra prima, caso eu não tenha deixado claro o suficiente. Também não é outra monstruosidade trash, aliás, seus elementos trashs estão mais restritos as condições técnicas do filme que a uma intencionalidade, isto é, ele não tenta ser tosco-grosseiro-exagerado, porém consegue isso em vários momentos devido à grana e à precariedade dos recursos técnicos.
Considerando ser esse um filme bem mais ou menos, você deve estar aí se perguntando o que deve existir de interessante nele, e se há mesmo algum bom motivo para assisti-lo que não seja aquela minha conversa mole de sempre: “filmes trash merecem ser vistos”. Vou tentar desdobrar esse ponto durante a resenha e, ao fim dela, discutirei um pouco se o filme vale o tempo dispendido.
Sssssssigam-me os bons.

Sssssss?


David Blake, um ingênuo estudante universitário, é convidado para servir como assistente de um grande especialista em serpentes, passando a conviver com o cientista e sua filha, sem perceber que ele próprio é o novo experimento desse homem.

A cobra (não) vai fumar

De maneira resumida, “O homem cobra” se concentra em mostrar a vida de Blake e seu mentor, mostrando o relacionamento entre os dois e Kris (a filha), o trabalho que desenvolvem com os répteis e assim por diante.
Colocando desse jeito, pode parecer que se trata de uma obra bem monótona, mas não é bem assim, na verdade, o filme se concentra mais na consistência da trama e no desenvolvimento dos personagens que em qualquer outra coisa. O homem cobra mesmo só aparece lá pelo fim da trama e como uma consequencia de uma série de acontecimentos, inclusive, esse é um grande mérito da obra, afinal, quem iria ao cinema ver “O homem cobra” esperando ver uma história, em muitos momentos, quase familiar? Contrariando um monte de filmes do período, “O homem cobra” não se vale dos elementos de ficção científica como uma espécie de muleta para a falta de roteiro, mas constrói o fantástico dentro do banal, da história (aparentemente) ingênua de um cientista, seu assistente e sua filha.
Caso eu não tenha sido suficientemente claro, o que quero dizer é o seguinte: se você está pensando em ver o filme para ver a cobra fumar desde o início, com sangue jorrando na parede, homens cobras matando à vontade e coisas semelhantes, desista, pois não é esse o intento do filme. O que ele deseja ser é um bom suspense com elementos de ficção científica e nada mais. O fato de que ele, por vezes, exprime elementos do trash (e até do terror) é meramente acidental.
Assim, feche sua boquinha engolidora de vidas e guarde essas presas venenosas para mais tarde, pois essa não é a ocasião para usá-las.

Lúcifer e a serpente

Não é preciso ser muito esperto para notar as várias simbologias as quais se ligam a serpente. Ela nos faz pensar em traição dado o seu comportamento imprevisível e nocivo, mas também em Satanás por conta da serpente bíblica que convenceu Eva a comer a tal da maçã e condenar a todos nós a um mundo onde existem injustiças, guerras, fome, Ivete Zangalo e sertanejo universitário. Pior para nós. Ocorre que, seja qual dessas associações simbólicas estejam atreladas à serpente, ela nunca é vista como um bichinho qualquer, ao contrário de, por exemplo, um pardal ou uma pulga. O filme se apropria desses signos de uma maneira bem sutil, isto é, sem nos dizer exatamente o que está fazendo.
A associação mais feita e repetida na história é aquela entre a serpente e Lúcifer. Blake ouve do cientista - num papo casual durante o dejejum - que o capeta, ao tentar nos conduzir ao conhecimento do bem e do mal - ou seja, a provar a tal da maçã - tencionava ajudar a humanidade e não prejudicá-la; ele queria nos ver progredindo. Bem. Que tipo de progresso haveria em sair do Éden para ter uma vida marcada pelo pecado, tendo conhecimento, mas, além disso, sendo um pária aos olhos de deus, faria de nós pessoas mais avançadas é algo que, todavia, ele não explica. Vamos guardar nosso senso crítico numa tapauer por enquanto e fingir que não percebemos isso, já que independentemente dessas questões, essa simbologia do Éden estará presente em todo o filme dali por diante de um jeito bem sutil e elegante que vou tentar explicitar aqui. É como se, a partir desse ponto da história (o café da manhã onde se dá a conversa), pudéssemos passar a ver a trama por uma perspectiva bíblica para entender as relações entre os personagens e os acontecimentos do filme. Em parte acho que isso dá certo, em parte acho que não. De qualquer modo, farei um esforço para tentar ler o filme dessa maneira que ele deseja ser lido, apontando incoerências somente quando não der mesmo e seu corpo conceitual parecer falhar. Avancemos.



Certo. Antes de tratarmos propriamente do coisa-ruim em forma de réptil, abordemos primeiramente a ideia de Éden. Fugindo de uma leitura da bíblia e me concentrando apenas na imagem popular do lugar, o jardim é uma espécie de instância na qual os seres humanos estavam em contato direto com o deus bíblico, percebendo-o sem a mediação da religião, outras pessoas ou de um livro sagrado. Lá eles viveriam em perfeita harmonia com os bichinhos e consigo mesmos, sendo Adão nascido para Eva e ela para ele, não tendo conhecimento do bem e do mal, sem sequer desconfiar que a monogamia era uma furada.
O desenrolar dessa história todos sabemos: a serpente seduz Eva que, seguindo os passos de Pandora, sua vizinha de mitologia, decide abrir a caixa, ops, provar o fruto proibido, consequentemente, deus fica emputecido, expulsa ambos e amaldiçoa seus trilhões de filhos que nada tem que ver como a história, cria tsunamis, terremotos, doenças, a dor do parto, meteoros, abortos espontâneos, o trabalho, secas, furacões... E nos dá a chance de nos religarmos ao seu “amor” através de certa atitude existencial.
Hum... Mais pensamentos para nossa tapauer. Prossigamos.
No filme, Blake e Kris (a filha do cientista que, esqueci de dizer, é também cientista) são representados como equivalentes a Adão e Eva: ambos vivem praticamente isolados e cercados de uma natureza que não irá feri-los graças a intervenção de um ser mais capaz; não desejam nada senão uma vida feliz e pacífica em que possam amar as mesmas coisas; e se encontram num estado de inocência quanto a um mal próximo que, em breve, lhes atingirá. Certa vez, inclusive, Blake convida Kris para um banho nú no lago sem que a cena nos sugira uma conotação puramente sexual, é como se ambos estivesse descobrindo o amor verdadeiro e não o alfabeto do MC Catra:
- Que tal nadarmos um pouco?
- Está louco, não viemos preparados.
- Eu não me importo se você não (…)
- Vamos, Kris, você é naturalista, não? E o que poderia ser mais natural que nós dois nadarmos no lago?
Sinceramente não sei como são as cantadas lá no habitat dos biólogos e qual é o grau de efetividade desse argumento: “você é naturalista, nadar no lago é natural, logo, vamos transar, quer dizer, nadar pelados”, contudo, já que essa conversa mole vingou no filme, talvez funcione também na vida real. Tentem vocês e me digam se deu certo. Substituam os termos pelas profissões de suas respectivas paqueras: “você é rica, quero ser rico, logo, case comigo” ou: “você acredita em deus, eu também, por isso, cresçamos e multipliquemos”, ou ainda: “você é modelo, minha mãe diz que eu sou bonito, então, que se faça a putaria!”. Não custa nada tentar.

*

Se Kris e David são Adão e Eva, Stoner, o cientista, é deus ou o cão. Sinto que algumas vezes ele se parece mais com um e outras com outro, o que favorece a interpretação de que ele seja mesmo o tinhoso, já que a grande falta do sete-peles é justamente tentar emular o senhor e falhar, afinal, deus não falha – é o que dizem.
Assim, tal como na historieta sobre o canhoto, Stoner tem como objetivo fazer com que os seres humanos progridam. Buscando isso ele atrai David com a proposta de emprego, a vida tranquila de estudioso e cuidador de cobras, sem adivinhar que, mais tarde, o jovem irá se engraçar com sua filha e botar tudo a perder. O expediente do progresso é bem simples: atraio um idiota para o meu laboratório e injeto nele drogas perigosas até que o rapaz atinja um estado em que sobreviverá ao que lhe é nocivo atualmente, mudando para algo completamente diverso. Essa nova condição seria semelhante aquela das cobras: seres plenamente adaptados ao ambiente e que sobrevivem: “à poluição, ao holocausto, às penúrias e às pragas”. Stoner crê que graças ao seu ideal (aparentemente) nobre são justificáveis suas ações bizarras. Ele é “um grande homem” como é dito logo na primeira cena.
O filme, entretanto, nos fornece muitos elementos para que desconfiemos das boas intenções do doutor. Desde o começo são feitas várias insinuações - por parte de outros personagens - a propósito de seu caráter, ademais, ele mesmo faz coisas que, se não se mostram más logo de início, soam suspeitas e contrárias à boa conduta que encena perante a filha e o aprendiz. A sugestão é que os ideias alegados pelo cientista podem não ser mais que interesse disfarçado ou, simplesmente, loucura. O pai da mentira poderia estar seduzindo Eva por puro capricho, porque é um tolo, porque não viu as coisas claramente, porque desejava a queda da humanidade, enfim, por um motivo diferente daquele que ele próprio alega para respaldar sua decisão. Há pessoas más por aí, leitores e leitoras do Café, que não enxergam os monstros que trazem dentro de si, por isso, se você também não os notar, poderá acabar sendo engolido por eles, ou pior: transformando-se numa aberração igual. Podem até alegar que demo não quis causar o mal que causou, porém, é inegável que ele jamais soube o que, de fato, era o bem.

Progresso


Um dos pontos altos do filme é mostrar um personagem bom (ou aparentemente bom) que comunga ideais com todos nós, mas que, no fundo, é a besta-fera encarnada. É como se ele nos convidasse a gostar do cientista só para, mais tarde, revelar que podemos apoiar nossos semelhantes só por conta dessa semelhança, supervalorizando o que nos une e ignorando o que nos separa. Frequentemente, ajudamos pessoas que pensam como nós ou que representam coisas com que nos identificamos, desculpando suas faltas e até sendo coniventes com elas de maneira que jamais seríamos com outros. Se Stone fosse simplesmente uma espécie de Robotinik nós o rejeitaríamos desde o princípio, todavia, ele é um velhinho simpático, um bom pai e um especiaista num assunto exótico que deseja o bem da humanidade, o que nos impede de hostilizá-lo como inimigo durante um bom tempo, período largo o bastante para que suas ações surtam efeito e já não possamos mais evitar o resultado delas.
Stoner é a própria noção de progresso megalomaníaco, a vinda inexorável do futuro a trazer coisas desejáveis por um preço incalculável. Ele dá a humanidade um maior conhecimento tanto do bem, possibitando que outras pessoas se aproveitem de suas pesquisas, quanto do mal, traumatizando sua própria filha e aqueles que acompanharam os horrores do homem-cobra. Qual é a verdadeira face desse progresso? Quão poderoso ele realmente é? Em tempo: estaremos dispostos a pagar por isso?

Devo provar essa fruta, quer dizer, fruto?

“Sssssss” não é um filme excelente, porém mais um passatempo para uma tarde ociosa, como são aquelas que temos vivido desde o nosso nascimento. Sua direção é bem executada, há boas cenas, atuações suficientes e, por mais que possa parecer o contrário, não é mesmo um filme ruim. Com efeito, não cabe aqui uma indicação do Café, entretanto ele também não merece nosso desprezo, o que, francamente, não vale de porcaria nenhuma já que ninguém lê mesmo este blogue e provavelmente devo estar escrevendo para ninguém ou para deus, se ele existir. Mantenham suas autonomias e façam o que quiserem, leitores, leitoras ou deus, se vocês existirem.
Para finalizar gostaria de citar um trecho de um poema de Walt Whitman dito no filme:
“Acho que podia mudar e viver com os animais. Eles são tão arrojados e reservados. Eu paro e olhos para eles por muito tempo. Eles não se lamentam pro sua condição. Não ficam acordados no escuro, chorando por seus pecados. Eles não me enojam discutindo seus deveres a Deus. Nenhum deles está descontente. Nenhum se preocupa com a mania de possuir coisas. Nenhum se ajoelha para o outro. Nem para a sua espécie que viveu há milhares de anos. Nenhum deles é respeitável ou infeliz sobre toda a Terra.”

Trailer:

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