sexta-feira, 1 de março de 2013

Resenha: Ernest: o bobo e a fera (Ernest scared stupid)


Nós, criaturas do lodo e da noite, sabemos que o mundo maravilhoso dos filmes trash tem diversas ramificações, ele vai do slasher mais sangrento ao pornô mais safado; tanto num caso quanto no outro temos a impressão de que esse é um tipo de cinema que não é para qualquer um, e que, sobretudo, é algo para adultos bem resolvidos e sem neuras com assuntos delicados. Quem é muito dogmático, decente ou simplesmente são não consegue apreciar bem o trash, pois ele faz sátira e heresia com tudo o que essas pessoas valorizam, em outras palavras, ele esculhamba com um monte de coisas as quais, se você louvar muito, vai se ofender assistindo uma obra que manga delas.
Todas essas coisas são muito verdadeiras, mas hoje vou precisar um limite para isso. Embora o trash seja sórdido, feio e tantas coisas mais, ele não é, necessariamente, feito para se restringir a um público adulto específico. O que quero dizer com isso? Bem, é simples: se há filmes ruins, feitos para que sejam ruins, direcionados para o público adulto, há igualmente filmes ruins, feitos para que sejam ruins, direcionados para crianças.
Não, não faça essa carinha feia de quem viu muita magia disney quando pirralho(a), pois garanto que você já assistiu pelo menos uma dúzia de filmes infantis que tinham de tudo para estragar sua vida – talvez até tenham conseguido!


 
 

Título original: Ernest scared stupid
Lançamento: 1991 (EUA)
Duração: 89 minutos
Direção: John R. Cherry




Ernest o bobo e a fera
Nosso amor hipócrita

Nós aqui no Café não gostamos muito de pensar que exista um gênero de filmes chamado “trash” e o motivo disso é que, se fizéssemos tal suposição, esse gênero teria que abarcar desde o pornô (como Papacu) até ficção científica (como Do além), o que nos parece incoerente. Assim, ao invés de considerarmos o trash como um gênero, preferimos concebê-lo enquanto uma característica que pode existir em filmes de quaisquer gêneros, incluindo-se-aí o infantil.
É nesse sentido que podemos trazer um filme para crianças (ou adultos retardados) aqui para o blog sem medo de desvirtuá-lo, tratando-o como trash quando ele não é. Um segundo viés seria nossa crença de que é um erro achar que um filme infantil é desprovido de ideologias e propostas temáticas porque seu público-alvo é inocente para percebe-las. O cinema pode muito bem ser usado como educação, ideologia e promoção de uma cultura, e esse é mais um motivo para analisarmos o filme de hoje.
Dito isso, vamos lá!

Quem é o bobo e qual é a fera?


Ernest, um besta que trabalha como motorista do caminhão de lixo, resuscita um antigo mal, um troll aprisionado por um antepassado seu. A fera parte em busca de almas de crianças para recriar sua raça e vencer os humanos.

O jardim de Ernest


Basicamente, “O bobo e a fera” expõe uma trama na qual importa mais a ação - o correr dos personagens de lá para cá, as piadas e coisas que irão nos entreter - que aquelas que nos conduziriam a alguma forma de introspecção, em outras palavras, o filme tem uma história bobinha e pouco importante já que tenciona mesmo vender ingressos e passar uma lição de moral que justifique o dinheiro gasto. Partindo disso, vamos analisar aqui as contradições da “mensagem” da obra, tentando explicitar o que ela esconde debaixo dessa superfície polida.
Embora quase a totalidade da trama seja debruçada sobre Ernest e sua tentativa presente de vencer o troll e impedir que ele refunde a raça ao custo da vida de crianças, todo o filme acontece tendo por base um passado histórico, quase mítico, cuja influência determinaria em grande parte o curso dos acontecimentos atuais. Relembremos: qual o motivo dessa guerra toda? O fato de que, num pretérito remoto, após uma briga com o troll, um antepassado de Ernest o aprisionou, além disso, como vingança a fera amaldiçoou seu algoz fazendo com que seus descendentes ficassem gradativamente mais burros, o que explica a condição de Ernest. Do mesmo modo como o protagonista tem que lutar uma guerra que não é sua, vivendo num mundo condenado por algo que corre em seu sangue, mas não tem origem em si, ele mesmo enquanto indivíduo está determinado por um passado esdrúxulo que o ultrapassa e faz com que seja como é.

Essa coisa toda tem uma carinha de pecado original que não está ali por acaso, inclusive, em certo momento o troll diz a ele:  “vai pagar pelos pecados de seus antepassados”, como um tipo de condenação ancestral ou mito do éden que determinaria sua condição presente. Malgrado isso, Ernest nem parece muito preocupado com o questionamento ou compreensão de sua conjuntura, na verdade, ele assume um papel no conflito sem se perguntar se poderia ser diferente ou se há ou não razão no que faz; seus motivos imediatos (ainda que possam ter uma origem histórica) são suficientes para fazê-lo se assumir enquanto caçador de monstros, por isso, se seu ancestral teve motivos para prender a fera, se ela é má por escolha, se foram os humanos quem deram motivos para que os trolls os caçassem, nada disso importa ao estúpido Ernest, distante da altivez de seus avós e bizavós, muito emburrecido por um sangue poluído para entender ou querer entender o que está acontecendo. A guerra é tudo e o que interessa não é a verdade, mas a vitória.

Na guerra até Ernest tem valor


Eu diria que essa questão da alienação quanto ao passado condenatório é um dos primeiros aspectos relevantes do filme, um segundo seria a questão da discriminação ou, caso você prefira, do bullyng. Esse é um dos pontos positivos do filme do ponto de vista de uma obra infantil, ele aborda a diferença de poder entre as pessoas que as separam na forma de relações sociais. Trocando em miúdos, quero dizer que as diferenças de poder entre as pessoas acaba gerando pensamentos separatistas entre elas. Nas crianças isso é bem óbvio já que elas não estão muito preocupadas em fingir que são boas - quando um menino não gosta de outro, seja por seu cabelo, sua roupa, porque o inveja ou qualquer coisa, ele pode humilhá-lo muito mais facilmento que um adulto numa situação semelhante. Nós, rapazes e meninas crescidinhos, ao invés de sairmos por aí batendo e cuspindo uns nos outros, usamos formas linguísticas mais sutis para substituir essa violência que não podemos mais praticar, seja mostrando o dedo, usando ironia, rotulando ou qualquer coisa semelhante. No filme, enquanto as crianças entram facilmente em conflito umas com as outras por meios físicos, e assim estabelecem os dominantes e os dominados, no núcleo “adulto ou quase isso”, por sua vez, a discriminação é bem mais sutil: Ernest é o motorista do caminhão de lixo porque é claramente diferente dos outros, sendo por isso tratado como um imbecil ao qual não se pode atribuir muita confiança. De um jeito e de outro o resultado é o mesmo: quem vencer na luta de forças ganha o “direito” de se sobrepor ao outro, podendo construir seu ninho no topo da hierarquia da dominação.
Pois bem, façamos agora um cálculo singelo: somemos aquele primeiro aspecto - da alienação de Ernest ao seu passado determinante - a esse segundo aspecto - da hierarquia de poderes dada pela discriminação - e assim poderemos concluir o resultado mesmo sem ver o filme: há uma guerra acontecendo e a maneira pela qual as pessoas se inserirão nela dependerá de sua posição na hierarquia social. As crianças discriminadas e Ernest estão situadas lá na parte baixa do sistema, reduzidos a condição de dependentes inconsequentes, enquanto os “adultos” tomam a decisão por eles e escolhem o que fazer. Não bastasse isso, os mais velhos não conseguem vencer o troll, entender a situação ou impedir o avanço dos planos da fera; suas tentativas de controlar a situação falha, de maneira que acaba ficando nas mãos dos desprezados resolver o conflito, entretanto, quando isso acontece e são eles que descobrem como vencer o troll, seu estatuto diante dos demais muda, eles passam a ser reconhecidos. Quem estava lá embaixo para a ficar junto a quem estava em cima.
O filme não se debruça nessa grande hipocrisia, mas podemos ressaltá-la aqui: as pessoas se odeiam e estão separadas por diferenças que criam hierarquias de dominação; uma criança pisa a outra, os adultos se sentem no direito de tratar Ernest como alguém inferior e desprezível por conta de suas características, entre outras coisas, contudo, na guerra tais diferenças vão desvanecendo conforme fica claro que, nesse momento de urgência, até um bobo como Ernest ou as crianças podem pegar em armas e enfrentar inimigos que ameaçam a todos. É como se a guerra unificasse as pessoas ao ponto em que, até a pior delas, passa a ganhar valor desde que enfrente o inimigo que condena o modo de vida coletivo. Um dado interessante a esse respeito é que na guerra do Iraque, dada a escassez de soldados, os EUA passaram a aceitar ex-criminosos em suas fileiras, dando a eles, portanto, um reconhecimento público de seu valor numa situação de emergência. A questão mais intrigante seria se depois da guerra as distinções anteriores a ela voltariam ou se os desprezados continuariam sendo valorizados por aquilo que fizeram no momento de guerra.

Amai uns aos outros exceto...

Bom, eu disse um monte de coisas cruciais do filme, porém agora me voltarei para a sua “mensagem” mais forte, a do amor incondicional. Lá pelo fim da história tentam nos dizer que o amor incondicional é um modo de se derrotar os monstros e impedir que sua raça ressurja. Por mais estranho que pareça é assim mesmo: ame seu inimigo, pois assim você irá matá-lo e também os seus iguais. Como o filme adere à visão do Ernest, ou seja, não olha criticamente para nada, também não consegue perceber um tom perverso nessa mensagem feita para ser bonitinha. Vamos explorar mais.
Na superfície nos é dito que um gesto de amor incondicional seria capaz de vencer uma criatura má, como um tipo de aceitação ou perdão dela a qual a fera não suportaria dada sua natureza. Com efeito, o amor incondicional seria uma espécie de sentimento superior ao mal que o venceria sempre, constituindo-se a maior potência existente contra ele. As crianças, dada sua ingenuidade, teriam em si a capacidade para o amor incondicional, o que as tornaria, talvez, mais aptas para vencer as feras que os adultos. Ernest, por sua vez, como é um tipo que nunca se desenvolveu enquanto adulto, tem o mesmo potencial que a molecada, por isso, também poderia vencer o troll. Assim, quando isso finalmente acontece, somos atingidos pelo amor incondicional do bobo e passamos a atribuir-lhe o valor que lhe tinha sido negado até então. Uma grande apologia do amor como forma de união entre as pessoas e superação da iniquidade, portanto. Ao menos, é disso que o filme tenta nos convencer.
Tomando alguma distância dessa baboseira toda vemos que não passa de uma superfície ilusória para uma realidade mais obscena. Na prática tal amor não vai além de um embelezamente de vários interesses convergentes. Desconsiderando que Ernest não tenta descobrir porque o troll é como é ou porque deveria se colocar contra ele como se coloca, temos um filme no qual sistematicamente o protagonista enfrenta seu inimigo de diversas maneiras bem violentas. O troll não consegue suportar amor, o que parece sugerir que ele seja uma criatura desprezível, no entanto podemos notar que amor de Ernest não lhe impediu de, durante ação do filme, distribuir pontapés na fera, atropela-la repetidamente com uma caminhonete, jogá-la de um veículo em movimento e coisas mais. Quem suportaria um amor desses? Friamente, o sentimento “incondicional” do protagonista não passa de um disfarce hipócrita para sua vontade de terminar com o problema, ele existe mais para solucionar uma situação pontual que para criar uma harmonia verdadeira entre o troll e o humano, afinal, se fosse mesmo amor, por que precisaria se atrelar aos interesses imediatos do personagem? O amor não seria incondicional justamente por existir independentemente do que a fera faça?
Da mesma maneira a ideia de que as pessoas seriam contagiadas pelo amor do bobo e assim aprenderiam a ama-lo fica prejudicada. Ernest ganha valor somente depois que combate trolls, virando uma espécie de guerreiro ou caçador, passando a ser “amado” não porque as pessoas aprenderam a gostar do que ele é, todavia porque notaram outro aspecto seu (o de guerreiro) o qual é muito conveniente para elas, fazendo com que reconsiderassem seus sentimentos quanto a ele. Dizendo bem claramente: as pessoas passam a “amar” Ernest somente quando ele se torna útil a elas. Santo amor. Aliás, o mesmo se dá com as crianças desprezadas, passando a ser respeitadas pelos adultos a partir do instante em que se mostram úteis e deixam de ser meros dependentes. Segundo essa noção de amor um guerreiro ou um cachorro bravo que enfrente e vença o adversário, no fim das contas, vale mais que qualquer ser humano.

Devo entrar em guerra com os trolls?


Não, trolls são legais demais para que sejam combatidos.
Quanto ao filme, creio que também não há um bom motivo para assisti-lo que não seja saudosismo da infância (se é que é possível alguém sentir falta dos filmes do Ernest nesse mundo). Não é o caso de eu vir aqui jogar o imenso prestígio da franquia Ernest na lama dizendo que o filme é uma porcaria completa, inclusive porque, se você tem ao menos uns dois neurônios, já sabe disso, porém de meramente dizer: essa fase da vida passou, foi bonitinha, nos fez felizes, rimos, torcemos pelo bobo ou pela fera, mas passou, e agora que já revivemos isso através desta resenha vamos abandonar o passado sem medo de crescer.

Trailer:

Nenhum comentário:

Postar um comentário