sexta-feira, 29 de junho de 2012

Resenha: Grotesque (Gurotesuku)


Muitas histórias de amor começam com um “primeiro encontro”, sim, isso mesmo, aquele momento estranho que o garoto tenta impressionar a garota e vice-versa (ou não). O nervosismo os ataca, frequentemente o assunto acaba e um não saber o que dizer pode fazer do evento uma situação constrangedora. Porém, mesmo sendo tudo muito estranho, podemos ser recompensados no final, dando possibilidades para outros e outros que podem resultar em uma linda história de amor.
            Sim, já vimos coisas assim em diversas histórias e romances, mas o filme que trazemos hoje traz uma perspectiva diferente: O que aconteceria se ao invés de acabar com um beijo o primeiro encontro acabasse com um lunatico sequestrando o casal para torturar e satisfazer seus mais estranhos desejos?





Título original: Gurotesuku
Lançamento: 2009 (Japão)
Duração: 73 minutos
Direção: Koki Shiraishi




Grotesque
Amor refletido na dor


            Boa parte dos filmes que já passaram pelo Café, mesmo muitas vezes tendo sangue e Tripas à vontade, guardavam também uma pitada de humor; algo que quebrava o clima e transformava todo o terror e bizarrices em algo cômico. Entretanto, o filme de hoje é diferente. Ele é pesado e nauseante. Deste modo, se você tem estomago fraco e se impressiona fácil, é melhor ficar apenas na nossa resenha e não tente ver o filme. Porém, se você curte ver coisas grotescas, torturas, sadismo e violência gratuita... Bem vindo (a) ao mundo doentio de GROTESQUE.

O sádico, o amor e a tortura...

            Era uma vez um casal andando pela rua. Um maluco golpeia-os com um martelo, leva-os pra um cativeiro e começa a torturá-los... Simples assim.

Cê tem pobrema?

            “Grotesque” é um filme feito, inteiramente, sobre tortura tanto física quanto psicológica... Esqueça “Jogos mortais” como seu critério de violência, amiguinhos, pois aqui a dor é mais intensa e vermelha. Não vemos aqui torturas de cinco minutos em que logo depois a pessoa morre ou se salva. Não. Se o filme tem cerca de uma hora e quinze, então temos provavelmente uma hora de tortura que é interrompida apenas por pequenos flashbacks do encontro que precedeu o sequestro.
            O filme se resume a três pessoas, o casal e o torturador que brinca com o emocional (e físico) tanto do garoto como da garota, torturando um enquanto o outro assiste o sofrimento do parceiro (a), sem poder interferir e sabendo que logo será o próximo.
            Apesar de tudo, “Grotesque” é um filme muito bem feito. A fotografia e a trilha sonora ajudam a interir o telespectador no sofrimento dos personagens. Quanto à primeira, nela se destaca o ambiente escuro cheio de plasticos e instrumentos de tortura, combinado com uma camera que acompanha o sofrimento dos personagens faz com que alguns telespectadores se contorçam na cadeira em certas cenas. Já quanto à trilha, ela é, talvez, o que mais se destaca no filme. A música clássica e algumas canções instrumentais dividem o espaço com o silêncio total que faz com que barulhos simples como passos, respiração, arrastar de uma cadeira, manipulação de um plástico (ou instrumentos) se torne algo perturbador.

Entre o vômito e o sangue existe o amor

            O filme já começa com o casal sofrendo o ataque, entretanto, em um flashback descobrimos que aquele era o primeiro encontro do casal. Apesar de o filme nos bombardear com excrementos, sangues e tudo mais que nos cause repulsa, no primeiro flashback vemos uma cena digna de filmes bobos de romance, em que o garoto sai com a menina pela primeira vez, demonstrando um lado todo ingenuo e “fofo”, talvez pela falta de experiência com outras mulheres, vemos todo o nervosismo e timidez do garoto enquanto tenta tomar coragem para perguntar se a garota tem namorado; típica situação que em qualquer outro filme seria algo cômico, mas não aqui...
            Como muitos de nós já sabemos, a vida nem sempre é justa e, muitas vezes, um louco qualquer pode estragar tudo que está por vir. “Grotesque” poderia muito bem ser um filme de romance, com um casal se conhecendo, tendo seu primeiro encontro no qual até mesmo pegar nas mãos é uma grande conquista, porém, o diretor Koji Shiraishi quis mostrar um caminho diferente. O que aconteceria se um sádico interferisse nessa linda de história de amor?
            Mesmo no meio da tortura vemos que existe um amor ali (o respeito em tentar não olhar o outro nú, preferir ser torturado do que ver o outro sofrendo...), deixando as coisas piores ainda, tanto pro casal quanto pra aqueles que estão assistindo.

O verdadeiro amor só é demonstrado mediante a tortura?

            O torturador faz questão de testar o limite da palavra e do amor do casal. Assim vemos que mesmo em condições de dor, humilhação e desespero, o garoto sempre que possível prefere ser torturado a ver a garota sofrendo. Seria isso o amor?
            Mesmo sendo o primeiro encontro vemos que existe algo genuíno ali, afinal, quantas pessoas se submeteriam a tortura para salvar o proximo? Quantos casais que já estão juntos a decadas colocariam a propria integridade a frente do perigo para evitar que a(o) amada(o) sofra? Eu arriscaria dizer que poucos...
            Não quero dizer que não exista amor entre pessoas que acabam dando prioridade para o “eu” em certos casos... Mas até onde iria o nosso amor numa situação extrema?
            Por sinal, essa é uma das coisas que o filme joga em nossa cara: um garoto que acabou de se apaixonar está dedicado a perder o próprio pênis, de uma das formas mais desagradáveis que você possa imaginar, e sofrer diversos tipos de abusos para que reduza o sentimento da menina, enquanto muitas vezes, em nossos relacionamentos, não aguentamos ir na casa da sogra  fazer coisas bestas e simples que “ajudariam” a sua/seu amada (o).
            No filme, mesmo perdendo os dedos, o olho, a dignidade e o pênis, vemos que, apesar de passar por tudo, ele continua demonstrando carinho e afeto, tentando anima-la e trazer esperanças, como se tudo fosse dar certo.
Você pode dizer que faria o mesmo pelo seu amor?

I wanna play a game...


            Muitas pessoas acabam torturando outras por acreditarem que estão fazendo algo maior ou simplesmente por estar cumprindo ordens, mas no caso do filme ficamos com a pergunta: por que, afinal, alguém tortura sem motivo nenhum (aparentemente) pessoas comuns?
            O torturador do filme é um sádico, disso não temos duvida. Porém, durante todo o filme me perguntei: quantas pessoas como ele existiriam por aí? Será que não há pessoas assim próximas a nós? Será que ele nasceu desse modo ou isso é consequencia de fatores externos?
            No filme vemos o sádismo no ambito da tortura e no prazer de fazer/ver o sofrimento alheio. Tudo acontece por ser a única forma do torturador conseguir se excitar, entretanto, será que o sádismo não existe dentro de cada um de nós como um mal que - com as condições adequadas - pode muito bem despertar? Claro que nós não torturamos ninguém (eu pelo menos não), mas quantas vezes já não ficamos feliz em ver a desgraça alheia, não necessáriamente física, mas profissional ou amorosa?
            Em “Grotesque” somos apresentados ao sádismo puro, cheio de torturas e humilhações, mas será que essa outra forma de sádismo, tão presente em nossa sociedade, também não é grave? Quantas pessoas já não foram prejudicadas por aquelas “pequenas mentiras inocentes” que foram contadas para ver a desgraça do próximo?
            Algo a se pensar...

Cura?


            Em certo ponto do filme o vilão diz ter conseguido aquilo que queria: ficar de pau duro excitado, logo que isso acontece o rumo do filme muda, ele passa a cuidar dos ferimentos das vitimas para que se recuperem e possa liberta-los depois, o que leva um estranhamento dos dois. Contudo, ambos acabam aceitando e de certo modo “perdoando” aquele que fez com que nunca mais fossem normais... Porém, podemos nos perguntar: sadismo tem cura? O torturado, realmente, conseguiu aquilo que queria, mas alguma vez estamos totalmente satisfeitos com aquilo que temos?

Mereço ser torturado?

            “Grotesque” não é aquele filme que você sente prazer em assistir e que tem vontade de ver diversas vezes (se tem, é bom procurar um médico), entretanto, pra quem gosta de ser chocado e fugir do comum, é uma ótima opção. Apesar de ser um filme bem simples, ele é muito bem dirigido, tendo uma fotografia impressionante para filmes do estilo e uma ótima trilha sonora; como já dito. Os três personagens do filme atuam bem e passam todo o medo, angústia e sadismo pra quem está assistindo.
            Não temos um roteiro primoroso, mas funciona muito bem no que se propõe, com alguns bons diálogos (mesmo tendo poucos).
            Recomendo passar longe do filme se você se impressiona facil e não consegue ver certas coisas, mas pra todas as outras pessoas, acho que é um filme que merece ser visto, não por ser espetacular nem nada, mas por fugir daquilo que estamos acostumados e tratar o sádismo (e o amor, porque não?) de uma forma não muito comum.

            Obs. Mesmo o filme tentando passar um realismo durante todo o filme e, penso, conseguindo, o final é uma das coisas mais trashs que já vi na vida e já vale todo o sofrimento e contorções na cadeira durante o filme.

Trailer:


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