terça-feira, 24 de abril de 2018

Resenha: Legião (William Peter Blatty)


               Eu poderia levantar diversas questões sobre a existência de deus e do diabo, possessão demoníaca contra doenças psicológicas, se o gorfo da Reagan em O exorcista era guacamole ou suco detox de couve, mas a única coisa que quero saber é: o diabo montado em um bode preto x deus montado em um querubim, os dois a 80km/h tu acha que vai ficar um do lado do outro?



               “O detetive balançou a cabeça. Constatou que a noção de um Deus menos do que todo-poderoso era tão assustadora quanto a ideia de não haver Deus nenhum. Talvez até mais. A morte seria o fim, pelo menos, sem um Deus. Mas quem poderia saber o que um deus falho seria capaz de fazer? Se fosse menos que todo-poderoso, por que Ele também não seria menos do que “todo-caridoso”,  como o Deus cruel, caprichoso e vaidoso de Jó? Com toda a eternidade ao Seu dispor, quais novas torturas perversas Ele não seria capaz de imaginar?”

Título original: Legion
Autor: William Peter Blatty
Ano: 1983
Editora: Darkside books
Páginas: 299

               Com o brutal assassinato de uma garoto negro de doze anos, o detetive William Kinderman percebe que está envolvido em um caso delicado, não apenas pela idade da vítima, mas também porque todos os detalhes do crime apontam para “o geminiano”, um serial killer que já está morto há mais de dez anos.

Assassinatos, demônios e reflexões

            Apesar de ser um livro vendido como terror, afinal é a continuação de O exorcista, boa parte dele acaba sendo um thriller investigativo. O livro começa quando o detetive Kinderman é chamado pra investigar o assassinato de um jovem entregador de jornais, que foi encontrado no meio de sua rota. Mas toda a morte do garoto é cercada de mistérios: no corpo foi marcado um símbolo e um dos dedos da vítima foi levado, que constitui uma assinatura característica de um serial killer morto na década anterior. Além disso, a principal pista desse assassinato é uma senhora que foi encontrada próxima ao local, totalmente desorientada e sem condições de se comunicar.
               Conforme o detetive vai se aprofundando no caso, as coisas começam a ficar cada vez mais estranhas, levando-o a crer que as mortes podem estar ligadas ao que aconteceu no passado com o padre Karras e, consequentemente, com forças extraterrenas por ele enfrentadas.
               Acho que isso é o suficiente pra você saber sobre a trama, porque além de ser curto, a história também está bem longe de ser boa como a de O exorcista. Mas vamos desenvolver melhor isso.

              
Blábláblázebu

               Não sei se você é como eu que já assistiu O exorcista incontáveis vezes (se não fez isso, então o que você andou fazendo da sua vida até hoje?), apesar de conhecer a história e saber como ela acaba é sempre legal revisitar a possessão de Regan, pois, apesar da idade, é o tipo de filme que continua atual e único, conseguindo sobreviver as centenas de cópias que surgiram após. Entretanto, mesmo sendo um filme que está entre os favoritos, eu sempre fui um pouco purista quanto a ele; sempre preferi rever o original do que assistir as continuações, posso estar errado, mas sempre me pareceram aquelas produções pra simplesmente lucrar em cima de algo de sucesso.
               Quando a Darkside enviou Legião pela parceria com o blog (valeu caveira), eu fiquei bem feliz, porque não era apenas uma produção cinematográfica caça-níquel, mas sim um livro escrito pelo próprio Blatty. Se o próprio autor de O exorcista acha que a história merece uma continuação, então é porque ele tem algo a acrescentar, correto? Errado.
               Legião está bem longe de ser relevante para a história que Blatty construiu anos antes. Apesar de ter suas reviravoltas e suas características próprias, ela acaba passando aquela sensação de obra feita pra se aproveitar das glórias do passado. Se no clássico tínhamos a história de Regan, o conflito dos padres, as dúvidas sobre a veracidade da possessão, o drama da mãe, entre outras coisas, na continuação, malgrado o mistério sobre os assassinatos, o autor foca muito em uma investigação que nem é tão legal assim.
               Meu maior problema com o livro, no entanto, foi o protagonista. Se Kinderman fosse apenas um personagem mala, tudo bem, em quase todo livro vão ter personagens/protagonistas que você não vai gostar, o problema é quando isso interfere diretamente na narrativa. Do início ao fim do livro, vamos ver infindáveis reflexões do detetive sobre deus, vida, diabo, etc. Eu adoro divagações, existem livros que são melhores pelas abstrações do que pela própria história, mas Legião, com exceção de um ou outro excerto, é massante e contém várias rupturas na leitura. Você está lendo sobre a investigação e, do nada, Kinderman começa a refletir sobre o ninho construído pelo passarinho. Eu arrisco dizer que cerca de um terço do livro se resume a essas “viagens” do personagem; quando você termina fica claro que o livro podia ter umas 100 páginas a menos e não faria falta. Lembrando: estamos falando de um livro com menos de 300 páginas, então fica parecendo que o autor preferiu enrolar pra dar volume a criar uma trama melhor.
               Eu não achei o livro ruim, mas ele foi decepcionante, porque as referências ao Exorcista estão ali só pelo marketing. Se você tirasse meia dúzia de parágrafos do livro excluiria todas as referências e elas não fariam falta nenhuma pra narrativa. É bem provável que se fosse uma história desvinculada da obra anterior e fosse um pouco mais direta, sem as masturbações filosóficas, eu tivesse aproveitado muito mais a leitura, que, independente das críticas, tem seus bons momentos.


O gorfo verde continua

            Logo que terminei a leitura eu descobri que legião também foi adaptado pro cinema, mas chamado de O exorcista III. Pelo bem da resenha decidi deixar meus preconceitos de lado e assistir o segundo e o terceiro filme. Sobre o segundo filme deixarei pra fazer uma resenha melhor mais pra frente; aqui vou falar um pouco sobre o terceiro, pois é o filme adaptado do livro que estamos comentando, contudo, pode ficar tranquilo que é possível assistir tanto o segundo quanto o terceiro em qualquer ordem, o segundo é uma continuação direta do primeiro e o terceiro não tem relação nenhuma com o segundo.
               Vamos lá. Exorcista III de certo modo foi uma surpresa, mas não significa que seja bom. Creio que por ter sido dirigido pelo próprio William Peter Blatty, o filme se manteve bem fiel ao livro, existem algumas diferenças, um exemplo disso é que parece que a produtora exigiu uma cena de exorcismo no filme que não tinha na obra original, entretanto, a estrutura e o desenvolvimento é basicamente a mesma.
               Uma coisa que eu senti é que o filme consegue ser um pouco mais convincente, porém, é que se trata de uma continuação. Você sente mais conexões com a obra original do que no livro, mas é puramente pelos recursos visuais, como algumas cenas em locações do filme original ou referências a personagens antigos, etc.
               Apesar de ter algumas coisas que gostei no livro, eu arrisco dizer que esse é um dos raros casos que o filme se sai melhor, pois apesar de ambos terem as mesmas qualidades e os mesmos defeitos, o filme suaviza as coisas ruins. O Kinderman no filme, mesmo com suas reflexões e atitudes estranhas, tem bem menos divagações e acaba sendo bem mais direto. Ele parece um personagem muito mais concreto, ao passo que no livro muitas vezes ele soa forçado e sem sentido. Mas como disse, mesmo aliviando os problemas, eles continuam ali, já que, assim como o livro, o filme também é um pouco cansativo e só começa a ficar mais interessante perto do fim.
               Enfim, apesar de algumas diferenças, os dois são bem parecidos e entregam uma experiência bem semelhante, cabe a você decidir se prefere livro ou filme.


Devo entregar minha alma pro Pazuzu… de novo?

            Um dos maiores problemas de Legião é o nome que ele carrega. É muito complicado se posicionar como a continuação de O exorcista, visto que é impossível você não comparar ou esperar algo tão bom quanto o original. Não sei se é algo corajoso ou ingênuo por parte do autor, porém pra mim parece bem estranho escrever uma sequência que se distancia tanto da anterior, uma vez que o principal elemento (que é o terror) é deixado em segundo plano pra trabalhar um thriller que pouco aproveita de O exorcista.
               Eu particularmente não gostei muito, até achei que o filme vale mais a pena, mas foi uma experiencia válida. Acho que é uma leitura que pode valer a pena se você souber no que você está se metendo, quer dizer, se você espera um livro de terror, é melhor procurar outra coisa, mas caso você queira um thriller com elementos de terror é provável que você aproveite a leitura. É claro, o ritmo dele e as divagações não funcionaram muito pra mim, mas isso é algo pessoal.
               Apesar das minhas críticas, é impossível não falar da edição da darkside, toda a parte gráfica tá incrível, desde a capa com um capeta gigante pra você ler no metro e receber olhares de julgamento das senhorinhas cristãs, até as belas artes internas com representação do inferno.
               Enfim, cabe a você decidir se abraça o capeta ou não.

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