sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Resenha: Jesus Cristo caçador de vampiros (Jesus Christ Vampire Hunter)


            Uma das coisas mais legais de apreciar o cinema trash é que depois que você viu uns cinco ou seis obras nunca mais vai ficar confortável para dizer que já assistiu ao pior filme do mundo, pois sempre existirá espaço para que alguém o surpreenda com uma nova porcaria. Bem dizendo, o trash é uma espécie Midas Reverso: tudo o que ele toca ou fede ou gruda. Trata-se de um cinema feito por uns poucos escolhidos que tem por objetivo criar uma porcaria mais maravilhosa que seus antecessores. Por sinal, deve existir alguma brasilidade nisso. Acho que esses roteiristas seguem aquele velho lema de nossa política: quanto pior melhor.
            Tendo dito todas essas coisas, recomendo que você, leitor, não leia esta resenha apenas por curtir muito os ensinamentos do nosso chapa J.C. ou porque você já um fã degenerado deste blogue que não tem mais escolha na vida senão clicar em cada link sujo que te aparece, mas porque você certamente nunca viu um filme tão bizarro sobre Jesus quanto o que iremos abordar aqui. Pelo menos por enquanto.



          

  Título original: Jesus Christ Vampire Hunter
  Lançamento: 2001 (Canadá)
  Duração: 85 minutos
  Direção: Lee Demarbre





Jesus Christ Vampire Hunter
Amai o próximo, porra.

            Surpreenda-se, leitor: Jesus Christ Vampire Hunter é um bom filme. Ele consegue ser divertido e ao mesmo tempo transmitir uma mensagenzinha mais ou menos coerente, que liga o seu princípio ao desfecho. Por mais estranho que possa parecer, o “aspecto técnico” é um dos maiores atrativos da obra, com vários recursos bem utilizados para compor as cenas e uma excelente trilha sonora acompanhando (excelente mesmo: faixas de rock, jazz e disco legais pra caramba).
           Basicamente, o entretenimento é garantido por meio de uma hora de piadinhas sobre religião, ateísmo, lesbianismo e cristianismo, usadas numa medida não muito exagerada e somadas à extensas cenas de ação (essas sim exageradas) que pretendem ser o maior atrativo do filme. Para a decepção geral da Associação Nacional dos Apreciadores do Trash, porém, não há sexo, nudez ou aquela vulgaridade gostosa que espanta a vovó da sala e faz a alegria da galera que fica até o fim da sessão (porque, afinal, a gente só “está só assistindo um filme”), mas essa ausência não é lá um grande problema, pois a trama funciona muito bem mesmo assim.

Qual é a tua fé?

            Após a ocorrência de vários assassinatos de lésbicas supostamente envolvendo vampiros, Jesus é convocado pela igreja católica para descobrir quem está por detrás disso e levar à justiça divina até eles.

Você aceita Jesus? Talvez ele não te aceite.

            Jesus Christ Vampire Hunter é antes de tudo um filme de humor. Ele apresenta a investigação de Jesus em torno do caso das lésbicas assassinadas e seu encontro com diversos inimigos que tentarão o atrapalhar, bem como de amigos que o ajudarão a cumprir seu destino. Há uma luta final lá pelos últimos e o bem vence o mal porque deus quis assim. Como todos sabemos.
            Apesar disso, a obra aborda em diversos momentos, alguns bem pensados, outros só zombeteiros, o tema da aceitação do outro e é a respeito disso que eu gostaria de escrever um pouco, tentando compreender o filme através dessa ótica.


            Há um curioso lugar comum amplamente aceito a respeito de Jesus: todos supõem que estariam do seu lado caso ele retornasse ao nosso mundo. Pelo visto, pouco adiantou a bíblia mostrar que, em seu próprio tempo, a maioria das pessoas estava comprometida com a crucificação de Cristo, ou que ele normalmente estava do lado dos indivíduos mais desprezados de sua sociedade contra a maioria das pessoas. Aliás, pouco adiantou mesmo: de Silas Malafaia à Jim Jones todos creem que Jesus é um cara bacana que voltará à terra comprometido com o modo de viver que temos atualmente, só para dizer que estamos indo bem do jeito que estamos.
            Esse modo de pensar denota uma plena confiança nas nossas virtudes (um sinal de doença), como se fôssemos virtuosos o suficiente para não precisar de correção, ou uma má interpretação do texto bíblico (um sinal de ignorância), como se Jesus fosse um simples bocó, pois um retorno de Cristo seria interessante justamente para que soubéssemos em quê ele nos incomodaria, em quê ele nos criticaria. É o incômodo profundo que deveria caracterizar o comportamento religioso; não a passividade, ela só caracteriza a ignorância.
            Jesus é interessante na medida em que ele carregou um fardo que nenhuma pessoa deveria carregar e que não contou com a ajuda, porém com a incompreensão dos demais. Nisso reside grande parte da beleza de sua história e esse é um dos aspectos mais explorados pelo filme, para nossa sorte. Na trama, J.C. busca realizar um bem que nem sempre é entendido como um bem pelos demais, na verdade, ao olhar das pessoas, assassinar lésbicas não é uma coisa assim tão mal e pode até ser bem bacana e divertido, já que lésbicas são pecadoras e pecadoras merecem punição. A isso Jesus responde que se deve deixar o julgamento dos pecados alheios para o mundo superior (deus, galera, saibam ler as entrelinhas...), cabendo a nós apenas amar nossos semelhantes. Com efeito, mesmo que lesbianismo seja mesmo um pecado (não fica claro no filme se é ou não), nós, meros mortais, não entendemos por quais motivos deus cria lésbicas ou permite que elas existam, sendo assim, devemos deixar os julgamentos para deus que entende a razão de ser das coisas e nos amar como pudermos mesmo sem entender uns aos outros. Quando julgamos o outro e o enquadramos como um pecador, fazendo certa reserva moral em relação a ele e deixando de lhe estender nosso amor, agimos como que imitando deus: como se entendêssemos a razão de ser das coisas e pudéssemos julgar nossos iguais estando acima deles, todavia, como explica Jesus, não podemos.
            De maneira completa e até um tanto florida essa é a “filosofia” do filme. Ela está pode detrás das aventuras de Jesus aqui na Terra.

Deus está do lado dos pecadores, ora



            Algo curioso sobre essa filosofia é que, na trama, ela faz parte da própria política institucional da Igreja Católica (ah, esqueci de avisar: Jesus é católico, pessoas. Sinto muito sobre a fé de vocês. Vou evitar fazer piadas sobre isso), quer dizer, a política da igreja tenta ajudar as pessoas independentemente de quem elas sejam (cof, cof, cof), sem condená-las por seus pecados (resistindo, resistindo) e as amando incondicionalmente. Igualzinho ao mundo real (ops). O relevante nisso é que as ações de J.C. são ações politicamente motivadas e não são somente frutos de suas decisões pessoais. Ele está sujeito à receber ordens ou algo assim, não agindo simplesmente porque quer.
            Por sinal, quando ele é convocado e informado a respeito do que se passa, os padres usam de uma frase curiosa para convencê-lo, dizendo que caso os assassinatos continuem as pessoas perderão o medo do inferno. Vejam bem: as pessoas, não uma pessoa em particular. Essa frase revela uma preocupação política da igreja, primeiramente, com as ações futuras de um grande número de pessoas e, igualmente, com o significado de se permitir o pecado escancarado e generalizado. Por isso, as ações de Jesus não incidem somente contra o pecado que acontece naquele momento contra um ou outro indivíduo, mas contra o significado social que aquele pecado pode adquirir caso continue se perpetuando. Diversas pessoas podem ser levadas à danação, por isso, mais que tirar o pecado, é preciso desaprender a pecar (perdão, perdão, tenham misericórdia).
            Assim como no mundo real, a igreja de Jesus Christ Vampire Hunter age nas sombras e se permite quebrar algumas regras sociais para alcançar suas finalidades, ocorre porém que no filme tais finalidades são evidentemente nobres, ao passo que no mundo real elas (CORTE DO EDITOR EM VISTA DO ACIONAMENTO DISPOSITIVOS LEGAIS DIA 25-12-2014. CONFERIR PROCESSO DE NÚMERO 666666-666-666 QUE CORRE EM SIGILO DE JUSTIÇA.)

Devo convidar Jesus para minha ceia de ano novo?

Jesus, você terá que matar esses filhos da puta
            El Santo.

            É bem provável que você ainda não acredite em mim mas direi do mesmo jeito, nobre leitor: Jesus Christ Vampire Hunter é um filme muito bacana, que merece toda a publicidade que um blogue de dez leitores mensais como o Café com Tripas pode oferecer.
          Imagine um filme em que Jesus sempre esteve vivo, embora escondido, e é agora convocado para atuar como uma espécie de detetive marcial sagrado em busca de vampiros bebedores de sangue lésbico. Se isso não te convencer da boa nova, então nada convencerá.
Para além dessa premissa maluca, durante o filme ainda vemos padres punks, lésbicas, caratê, ateus malvadões, tripas, vampiras sexys, assassinatos e discursos bacaninhas sobre a moral, tudo isso dentro de cenas bastante simples porém engenhosas, feitas com recursos que não comprometem a diversão nem se tornam atrativos eles mesmos. A obra está repleta de humor com base na sacralidade de Jesus, como na cena em que ele abençoa um copo de cerveja só para bebericar um bocado e cuspir rajadas de “água benta” nos vampiros, ou na sequência em que ele tem que cortar suas longas madeixas e tomar um banho de loja para passar desapercebido entre os mortais e coisa mais. Lá pelo meio da história a trama também conta com a participação do personagem de luta livre El Santo (na história, até mais popular que Jesus), que age como uma espécie de... santo que acompanha a jornada de Cristo, distribuindo não bênçãos mas sopapos nos adversários.
            Jesus Christ Vampire Hunter oferece uma boa fusão entre as bizarrices comuns ao gênero trash e uma narrativa interessante. Muita ação e humor com um pouquinho de sangue: tudo o que um fã de trash precisa para passar bem sua vida.

Trailer:

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