sábado, 7 de dezembro de 2013

Resenha: Uma noite de crime (The purge)


            Como todos sabemos, a criminalidade é um problema social não só do Brasil mas do mundo como um todo. Alguns acreditam que a culpa são dos pobres (pra variar), outros dos ricos, uma parte diz que o problema é a falta de leis mais rígidas e que até crianças de 14 anos devem ser julgadas, e uma minoria como nós acredita que os zumbis deveriam tomar o mundo e acabar com essa racinha de merda. Mas se você não é como nós você deve sonhar com mundo sem violência e com mais amor (e unicórnios cor-de-rosa).
            Sendo assim, o filme que o Café escolheu pra abordar hoje oferece uma proposta para acabar com essa violência diária que tanto nos assusta. Entretanto, o mundo não é lindo nem cor-de-rosa. Tudo vem com um preço, talvez você esteja disposto a pagar, mas será que todos estão?
            Liberte toda sua raiva, toda sua insatisfação e venha participar do expurgo...



The Purge
Sem luxo sem vida


Título original: The purge
Lançamento: 2013 (EUA)
Duração: 85 minutos
Direção: James DeMonaco




Violência contra a violência


            Como forma de combater a criminalidade, o governo sancionou um período de 12h a cada ano no qual todo tipo de violência é aceita e estimulada. Durante essas 12 horas a polícia e os hospitais suspendem ajuda, transformando o país numa zona de guerra: cada um por si e todos contra todos.
            O filme acompanha a história de James, diretor comercial de uma empresa de segurança, e sua família. Como tradição, todos os anos no dia do “the purge” a família se tranca em casa com o melhor sistema de segurança do mercado e espera todo o caos passar para voltar para a rotina.
            Entretanto, seu filho mais novo, que não compreende muito esse “feriado” bizarro e cheio de mortes, acaba refugiando um morador de rua dentro de casa nesse dia, despertando a fúria de algumas pessoas que o estavam caçando e transformando o que seria uma noite calma numa noite de terror.

Expurgando

            Uma pequena observação antes de começarmos a resenha: The Purge não é um filme trash (apesar de ser possível fazer um bem interessante com o mesmo conceito), entretanto, ele tem uma ideia bem interessante e se enquadra na proposta do blog. E antes que nos venham chamar de vendidos, estamos ganhando porra nenhuma (mas bem que queríamos) por falar de um filme um pouco mais pop. Sendo assim, senta essa bunda gorda na cadeira e leia essa merda. maravilhosa resenha.

*

America. 2022.
A taxa de desemprego é de 1%
A criminalidade é a menor de todos os tempos
A violência quase não existe, com uma exceção...

            Com essas palavras atrativas o filme se inicia. Num primeiro momento queremos logo saber qual é essa mágica, afinal, o filme pode ter a solução pros problemas do mundo e nós não sabemos. Acabar com a criminalidade e com o desemprego é um sonho para alguns países (para outros nem tanto, como muitos de nós já sabemos).
            Bom, mas como nem tudo é perfeito. Após esse breve momento de esperança já somos expostos a diversas cenas de violência gravadas por câmeras de segurança. Ai nos perguntamos: essa porra ai não era pra acabar com a violência?
            A trama de fato começa com nosso protagonista James voltando pra casa e comemorando o sucesso de vendas, afinal, ele trabalha em uma empresa de segurança que oferece os melhores equipamentos para as pessoas se protegerem durante o expurgo. Até este momento não temos  noção clara do que é esse evento, porém é interessante notar que as pessoas o tratam como se ele fosse um mero feriado: na rádio expõem-se as opiniões das pessoas, pergunta-se o que elas farão durante, etc. Os vizinhos desejam uma boa noite um pro outro, as pessoas colocam flores azuis na porta de casa para mostrar que apoiam, alguns fazem festas, etc.
            Apesar da aparência de família americana feliz, percebemos alguns conflitos internos na realidade de James: sua filha namora um cara mais velho que ele não aceita, seu filho mais novo não compreende (nem aceita) muito bem esse “feriado”, sentimos sua esposa não se sente bem com “o expurgo”, contudo acaba se convencendo de que aquilo é bom. Além disso, ele mesmo se mostra cego a todo o problema do expurgo.
            Chegada a hora do expurgo a família se reúne, aciona os sistemas de segurança e se prepara pra uma noite tranquila dentro de casa enquanto o mundo explode do lado de fora. Tudo prossegue como o esperado, até que, o filho, confuso com toda a situação, ao ver um sem teto pedindo ajuda pela câmera de segurança, decide abrir as portas e refugiá-lo. 

Bem-vindos à nova América


“Abençoados sejam os novos fundadores por deixarem expurgar e purificar nossas almas.
Abençoada seja a América, uma nação renascida”

            Vamos refletir um pouco sobre o The Purge. Como forma de diminuir a violência, o Estado decreta 12h anuais nas quais todo o tipo de crime é permitido, ou seja, um período em que a sociedade pode se expurgar, liberar sua raiva contra quem quer que seja: matar o chefe, o marido, a vaca que copiou seu corte de cabelo, esses jovens subversivos que escrevem um blog sobre filmes ruins, enfim, quem você quiser. Durante esse período tanto a polícia quanto os hospitais suspendem serviço; cada um por si e todos contra todos. E, por incrível que pareça, essa atitude louca “dá certo”: a violência diminuiu, a taxa de desemprego caiu, as pessoas se sentem mais seguras, etc. Mais ainda, ela nos mostra que o homem é um ser violento por natureza, ou seja, por mais “civilizado” que você se mostre, no estado de natureza, você não passa de um animal. E assim como no mundo animal, nossa presa é sempre o mais fraco.
            Em algum momento você deve ter pensado, mas qual o problema? O país ta indo bem assim e se não quiser participar do feriado é só se trancar em casa ou viajar pra outro lugar que você estará seguro. Não, não é bem assim. No filme acompanhamos uma família rica que tem tudo a disposição, agora pensemos em quem não tem condições pra pagar um sistema de segurança, ou quem não tem nem mesmo uma casa, você acha que a queda da criminalidade foi só porque as pessoas ficaram mais aliviadas depois de extravasar a raiva? Porque você acha que também houve uma queda no desemprego?
            O “the purge” é sonho dos reaças mais fervorosos, pois o evento não passa de uma limpeza social. O fim da violência e do desemprego está diretamente ligado a isso: ao matar a parcela mais pobre da população, elimina-se boa parte dos problemas causados pela incompetência do governo. Porque investir em educação, emprego e condições sociais pra melhorar a qualidade de vida e dar dignidade pros mais pobres se podemos simplesmente exterminá-los?
            Essa é a maior critica do filme, e muitas vezes ele nos faz pensar se nós já não estamos caminhando nessa direção. Mais e mais gastamos com segurança e nos refugiamos em nossos lares enquanto jovens colocam fogo em moradores de rua, acontecem incêndios misteriosos em favelas, algumas pessoas entram no carro da polícia e somem misteriosamente...
            Por isso, “o expurgo” é um feriado para ricos, no qual resumem em 12h legitimadas toda a violência que algumas pessoas sofrem diariamente, é uma forma de eliminar o problema de uma vez e não aos poucos. Inclusive, boa parte da população se mostra indiferente, aceitando todas as justificativas sobre o quão bem aquilo faz para a sociedade, mas sempre ignorando (ou não tendo acesso) a opinião dos que mais sofrem com isso.

A sensibilidade que perdemos

            A pessoa mais sensata no filme é um garoto com cerca de 15 anos: ele não consegue se mostrar indiferente ao que está acontecendo do lado de fora, diferentemente do seu pai que está olhando o barco que vai comprar enquanto alguém grita por ajuda do lado de fora.
            A sociedade como um todo perdeu a compaixão pelo próximo. A única morte que nos afeta são aquelas de pessoas próximas, de resto, tratamos apenas como números a menos, e dependendo caso, nem vemos como perdas, mas sim como ganhos. Ou vai falar que nunca viu gente comemorando quando acontece algum massacre em presídios ou algo do tipo? Esse é exatamente o mesmo tipo de pessoa que iria pras ruas no dia do expurgo matar aqueles que “estão abaixo da cadeia alimentar” e logo depois diria que é para o bem social.
            O filme joga em nossa cara o tanto que banalizamos a violência. Um detalhe que achei bem interessante é que os próprios telejornais do filme exibem cenas de pessoas mortas, sendo espancadas, etc. Pode parecer estranho, porém não é algo impossível. Estamos sendo bombardeados com notícias sobre assassinatos 24h por dia, e apresentadores como Datena se popularizam cada vez mais. Quando paramos pra pensar pode ser estranho, mas nós geralmente almoçamos/jantamos escutando notícias cada vez piores, como se estivéssemos vendo um filme qualquer, melhor dizendo, a violência é um mercado em expansão e nós demandamos. O filme não é tão absurdo assim...
           
Não sabe brincar, não desce pro play


            Voltando à história.
            No mesmo momento que o morador de rua entra na casa, o namorado da filha aparece para acertar as contas com James por não aceitar o namoro de ambos. Não bastando um pobre dentro de casa também teriam que lidar com um adolescente apaixonado e destrutivo de 18 anos.
Mas como dizem por aí, a noite é uma criança, e ela está apenas começando. Um grupo de mascarados aparece na porta exigindo que a família entregue o morador de rua, pois eles o estavam caçando. Sabe criança mimada que não aceita perder? Então. Caso a família não entregue o grupo ira entrar na casa e matar todos. O discurso do jovem serve para exemplificar o que discuti logo acima, pois além de ser branco, loiro e magro, ele se mostra educado e político, e diz que são apenas jovens exercendo o direito e dever, afinal estão limpando o país, e que o homem que eles perseguem é apenas um porco, o lixo da sociedade, que matou um dos seus amigos. E que é melhor devolvê-lo, vivo, por que eles querem apenas o indigente, e não machucar a família, pois são iguais. Ou seja, para muita gente, a questão das mortes estão diretamente ligadas a questão de classes sociais.
É importante notar as contradições, típicas de nossa sociedade, expostas em alguns diálogos. O líder dos mascarados se mostra inconformado com a audácia de um morador de rua ao matar um de seus companheiros enquanto eles o caçavam. Sim, nós do Café também achamos. Que absurdo é esse? É obvio que o morador de rua tem que deixar esses jovens lindos, bondosos e bem-criados matá-lo. Onde já se viu pobre ter direitos?
O filme brinca com isso e em diversos momentos vemos a questão do direito ser problematizada. Todavia, se observarmos bem esse direito só é aplicado a alguns, até parece um certo lugar que eu conheço. Todos aceitam o direito quando lhes é conveniente, posso estreitar minhas armas novas contra essa gente diferenciada, mas a partir do momento em que eles começam a nos agredir a história muda. Como diz o próprio James: “Coisas assim não deveriam acontecer no nosso bairro”. Aquela mesma coisa da morte de um jovem nos Jardins e um massacre em alguma favela: lá pode, aqui não.
A partir desse momento temos tanto uma inversão de papeis, conforme a família que tem o melhor sistema de segurança começa a se sentir insegura, quanto o despertar de um senso critico e moral: preciso entregar o homem pra eles mas se entregar vou sujar minhas mãos de sangue – o que fazer?
Assim como na vida, ninguém se importa com o outro, mas ninguém quer sujar as mãos.

O verdadeiro perigo

A partir dessa premissa o filme se desenrola com algum suspense, alguns tiros, alguns mascarados fazendo pressão, etc. A resenha já está longa e não tem o porque eu me estender nisso, entretanto, precisarei dar alguns spoilers para refletir sobre alguns assuntos tratados. Então se pretende ver o filme e não curte spoilers, pule para o próximo tópico.
Depois de todo o desenrolar, quando finalmente os mascarados entram na casa um grupo de pessoas aparecem para salvar a família, tudo parece bem até que... descobrimos que esse grupo não está ali para salvá-los, pelo contrário. Sim, a família feliz americana não está tão protegida assim, e adivinha quem é o grupo? Isso mesmo, seus vizinhos.
Tanto isso quanto a questão das mascaras mostram que estamos em um mundo onde ninguém conhece ninguém e não sabemos em quem confiar. Os próprios vizinhos que te levam cookies ou que vão janta na sua casa podem estar querendo te matar sem você nem mesmo imaginar. Do mesmo modo os jovens de mascaras, eles podem ser qualquer um, podem ser um amigo de colégio de alguns dos filhos, entretanto no fundo, no momento em que as pessoas ganham liberdades, todos esses sentimentos reprimidos acabam se extravasando.
Os vizinhos querem matar a família simplesmente por inveja (ou recalque, como preferir), pois James vendeu sistemas de segurança pra todo o bairro e com esse dinheiro reformou a casa, sendo interpretado como exibicionismo pelos outros. Já os jovens mascarados decidem matar a família por mimo, não quer me dar então te mato (sabe quando você ta no shopping e a criança deita no chão e começa espernear falando que se não comprarem o brinquedo que ela quer ela vai se matar? Então, tipo isso).
Resumindo, as pessoas querem te foder sem nem dar um beijinho antes.
Sabe o mais irônico de tudo? Que a família, desde o inicio teme os pobres, os baderneiros, entre outros, contudo, quem causa problemas são as pessoas do mesmo grupo social, e, assim como na vida, no fim, quem salva a bunda dos branquelos é justamente aquele que foi injustiçado, discriminado e agredido pelos mesmos, o pobre.

Quando for presidente, posso criar uma lei que permita matar todo mundo?


            Como vimos no decorrer da resenha, não amiguinhos, todos sabemos que o crime não compensa e que o expurgo só vai foder ainda mais quem já ta fodido, e quem merece ser fodido, bem....
Quanto a ver o filme, sim. Juro que não entendi muito bem em que se fundamentam às milhares de criticas negativas sobre ele. Compreendo que poderia ser melhor, porém ele é muito competente no que se propõe.
Já disse isso por aqui mas sinto que as pessoas, quando assistem filmes de terror, desligam o cérebro e não refletem sobre o que estão assistindo, acabando por julgar negativamente só porque não tem mortes legais ou um assassino carismático. The purge, assim como Smiley, é o tipo de filme de terror que transmitem um outro tipo de terror. Aquilo que está na tela é facilmente superado por milhares de outros filmes, entretanto aquilo que está implícito, o que ele não mostra assusta muito mais porque ele se utiliza de assassinos cinematográficos para explorar o real.
Não temos mortes sensacionais e nem mesmo peitinhos, mas o filme entrega atuações convincentes (principalmente a do líder dos jovens mascarados). A direção não trás nada espetacular mas não decepciona. Se não fosse pelo roteiro e pelo tema abordado não passaria de um filme mediano, no entanto ele acaba trabalhando muito bem a ideia oferecida.
Então caso não tenha visto ainda, pegue sua mascara, suas armas e venha expurgar sua alma.


Trailer

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