sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Resenha: Nasce um monstro (It's alive)


Vampiro, aquele ser que suga o outro para satisfazer suas necessidades, hoje, o Café trás outro monstro - um bebê mutante assassino... Espere, falaremos de um bebê mutante assassino, mas ele não é o principal vilão do filme. O verdadeiro vilão é mais familiar e parecido com um vampiro: é sedutor, em muitos casos age sutilmente e suga até a última gota do sangue de sua vítima para permanecer vivo. Entretanto, há uma diferença fundamental entre eles: ao contrario do vampiro, esse vilão não precisa da sua permissão para entrar em sua casa, pois já está lá, na sua sala, na sua cozinha e até mesmo no seu banheiro.
Sim, hoje falaremos um pouco do vampiro da vida real, a mídia.



It’salive
A mídia e o monstro



Título original: It’salive
Lançamento: 1974 (EUA)
Duração: 90 minutos
Direção:Larry Cohen





Bebê do Capeta

            Frank e Leonor Davis estão esperando o segundo filho, porém, quando chega a grande hora, a mãe começa a perceber que existe algo de errado. Ao nascer, a criança mata todos os médicos e foge causando terror pela cidade.

We're a happy Family, We're a happy family


            Frank é um reconhecido consultor de relações públicas e Leonor uma dona de casa que cuida dos problemas domésticos e do filho Chris. Após alguns anos evitando uma gravidez tomando anticoncepcionais, Leonor acaba engravidando e ambos decidem ter um novo filho.
            A gravidez parecia bem até o momento no qual, quando ela está no hospital, pronta pra ter o filho, começa a sentir que algo está errado. E como nós sabemos que instinto materno nunca falha... Sim, há algo errado, muito errado.
            Logo que nasce a criança mutante mata todos os médicos envolvidos no parto e foge. Ademais, como se já não bastasse isso para abalar a vida nos pais, surge outro monstro na história.

O verdadeiro monstro


            O problema real na trama não se resume na criança mutante assassina do capeta (de certo modo ela acaba sendo secundaria), mas sim na espetacularização que promovem em cima da historia.
Algumas horas depois do massacre, Frank entra em seu carro e vai para casa tentar relaxar um pouco, entretanto ao ligar o radio escuta prontamente seu nome sendo relacionado à criança, o que fará começar um verdadeiro inferno em sua vida.
No dia seguinte, Frank vai ao trabalho - uma forma de se distrair e não ficar pensando em toda a merda que está acontecendo além de estar com uma conta importante em mãos -, entretanto, devemos lembrar que ele trabalha com relações públicas, logo, sua função é criar imagens; e alguém com um bebê mutante assassino por trás da imagem de uma empresa não seria a melhor opção, ou seja, obrigam sugerem que ele tire umas férias até que toda a confusão passe.
Enfim, a grande questão que o filme coloca é até que ponto a mídia deve explorar os fatos? Ela tem direito de sair expondo as pessoas e acabando com suas vidas mesmo que sem intenção?
Frank e Leonor tiveram um filho que nem nasceu e já saiu matando varias pessoas. Contudo, eles não tem culpa ou informação de qualquer atitude do recém nascido, então, qual o sentido de ficar enfiando microfone na cara de ambos fazendo perguntas tendenciosas?
O problema é que os jornalistas, em muitos casos, não querem noticiar fatos, mas sim criar espetáculos. Sabe o pior de tudo? Nós apoiamos.
Por exemplo: diversos julgamentos no Brasil acabam sendo influenciados pela opinião pública quando, na verdade, deveria ser algo julgado com base nas leis. Aliás, quantas vezes não vemos pessoas vindo de outras cidades para ficar na frente da casa de um suposto assassino (em alguns casos sem prova) pra ficar gritando “assassino” e outros milhões de xingamentos para ele? As pessoas esquecem que estão lidando com vidas humanas e transformam até mesmo questões trágicas em espetáculos. O jornalista tem que informar, mas existe um limite que acaba quando isso começa a impactar na vida de pessoas que não merecem e/ou influencia no trabalho de autoridades.

Retornando ao filme. Após Leonor voltar pra casa, Frank contrata uma enfermeira para cuidar dela, entretanto, a mulher é pega tentando gravar uma conversa em que tenta de certo modo interrogar paciente sobre a criança. A falta de limite pra invadir a vida alheia leva a atitudes como essas que estão cada vez mais em alta na sociedade. Mas de quem é a culpa? Podemos perguntar. É da enfermeira e dos paparazzis que fazem de tudo para conseguir uma gravação ou uma foto, ou mesmo da própria sociedade que demanda cada vez mais revistas e programas de TV sobre a vida de outras pessoas?
O entretenimento de ficar lendo a respeito dos outros em muitos casos acaba prejudicando algumas vidas, como no caso do casal do filme em que eles se afastam do filho mais velho pra evitar que ele sofra com todo esse caos que a mídia faz em cima da família além de prejudicar a relação deles. Uma vez que Frank começa a se afastar cada vez mais da família com o intuito de resolver toda a merda e Leonor que aos poucos começa a “enlouquecer”.
E assim como na realidade, no filme, enquanto o espetáculo fica em cima do casal que teve o filho os verdadeiros culpados, empurram a sujeira pra de baixo da mesa e ninguém fica sabendo.

Essa pica não é minha

Além da mídia, médicos e cientistas também ficam em cima do casal, pois querem o corpo do pequeno monstro depois que ele for morto. Afinal, é um monstro desconhecido e precisa ser estudado. Mas em certo momento descobrimos quem são os verdadeiros culpados: os próprios médicos, cientistas e o governo. Sim. A propósito, onde está a mídia agora?

A questão é que a mutação genética que se desenvolveu no bebê é culpa das pílulas que Leonore estava tomando, e detalhe, não foi testada pelo governo antes de passar a ser utilizada pelos médicos. Isso faz com que ocorra um conflito de poderes, pois um dos responsáveis pela indústria que produzia a droga começa a chantagear os médicos e cientistas que iriam estudar o pequeno monstrinho, já que se alguém descobrisse que a culpa é do laboratório e do governo, a coisa iria ficar feia pro lado deles. É muito mais fácil jogar a culpa nos pais.
Por um lado o pai assina a autorização pra universidade estudar a anomalia e por outro os poderosos pedem para que seja destruído de modo que ninguém fique sabendo da culpa deles. Ou seja, o avanço cientifico não está na mão dos cientistas, mas nas mão daqueles que irão tirar proveito disso, ou seja, se um estudo for útil para a sociedade, mas não trouxer retorno ou prejudicar alguém, ele não precisa ser feito.
Assim como Frank fala em certo momento do filme:

Quando era criança, sempre achei que o monstro, era o Frankenstein. Karloff andando com aqueles sapatos enormes, grunhindo. Eu achava que ele era o Frankenstein. Depois, quando fui para o colégio e li o livro, eu percebi que o Frankenstein era o médico que o criou. De certa forma, as identidades ficaram misturadas, não é?

Muitas vezes o monstro não é o ser feio que mata, mas sim aquela pessoa elegante de terno/jaleco que contribui para a criação do mesmo.

Amor de mãe


Apesar de tudo, Leonore não deixa de ver o filho como uma pessoa, ao contrario de toda a mídia, policia e até mesmo Frank (até certo ponto do filme) que o classificam como um monstro. Em certo momento ela diz: “Ele estava muito assustado”. Claro que não vemos bebês mutantes assassinos que já nascem matando, mas o monstro de Frankenstein e o bebê de “It’s Alive” estão muito próximos, assim como muitas pessoas que acabam fazendo merda.
Será que se o bebê nascesse com as mesmas deformidades, mas sem sair matando todo mundo, ele com o tempo não acabaria se assustando com a sociedade e desenvolvendo instintos assassinos? Não defendo qualquer tipo de violência, mas não podemos deixar de reconhecer que por trás de muitos assassinos existem “pessoas de bem” que não estavam xingando, criticando ou zoando; estavam apenas brincando.
No filme a mãe é a única a pensar na criatura como filho apesar de suas deformidades, e posteriormente o pai também percebe, mas aí já é tarde de mais.

Devo adotar um bebê mutante assassino?

            Em questões técnicas, apesar de nada espetacular, o filme se sai muito bem, mesmo dando pra perceber o baixo orçamento. A fotografia é bem interessante em alguns momentos como quando vemos através dos olhos do bebê em que o mundo é todo distorcido. A trilha sonora é bem simplista, com efeitos que já escutamos em diversos outros filmes, porém, que complementam bem as cenas. A atuação de Frank em alguns momentos chega a ser cômicas mesmo em momentos tensos, ele faz umas caras bem estranhas como se estivesse louco.
            “Nasce um monstro” é uma obra bem simples: não temos muitas cenas de gore e nunca vemos o monstro direito, sempre o vemos de relance e em cenas bem rápidas. O filme acaba se dando bem mais em cima de Frank e todos os problemas que o nascimento do bebê o trouxe do que no monstro em si.
            É um trash que não extrapola nas bizarrices. Temos sangue e monstros, mas em pequenas doses. Sim, o filme é bem feito (pro gênero) e também divertido. Não iremos rir como em “Palhaços assassinos do espaço” e também não vai chocar como “Cannibal Holocaust”, no entanto não deixa de ser um bom filme.

Uma notinha antes de acabar:

Já existe um remake de “It’s alive” que não mencionamos no correr desta resenha. Fizemos isso para que no futuro déssemos uma abordagem apropriada a ele através de uma resenha própria.

Trailer:

4 comentários:

  1. Ótima análise sobre o filme. Fiquei com vontade ver.

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  2. Opa, valeu anônimo,fico contente, o blog é pra isso mesmo.

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  3. Serio cara, eu acho encantador o modo como você ignora a cunha de filme trash dos filmes, e busca uma coisa além, uma qualidade que a maior parte dos críticos e o publico simplesmente não enxergar(nem tentam, na verdade). Sempre há o que se aproveitar em filmes menosprezados, é só ter mente aberta. Você realmente está de parabéns.

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    1. Muito obrigado, ShounenEvil. A proposta do blogue é bem essa: tentar catar o mínimo e o escondido, como diria o velho Machado.

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