quinta-feira, 7 de junho de 2018

Resenha: O colecionador (John Fowles)


            Você já desenvolveu um amor platônico por alguém? Algum garoto ou uma garota que você stalkeava (ou stalkeia) mesmo que essa pessoa nem saiba da sua existência ou que saiba, mas desconhece suas intenções? Já planejou uma vida junto com alguém mesmo que o máximo de contato tenha sido um “oi” no elevador? Ou pior ainda, já ficou com ciúmes de alguém que nem mesmo conhece a não ser por postagens em redes sociais? Não adianta mentir, é bem provável que você já tenha passado por algo do tipo, entretanto eu espero que não tenha chegado ao ponto de sequestrar a pessoa desejada para que ela possa te conhecer melhor.




               “Sou uma entre uma fileira de espécimes. É quando tento bater as asas que ele me odeia. Meu papel é estar morta, presa por um alfinete, sempre a mesma, sempre linda. Ele sabe que parte da minha beleza reside em estar viva, mas é morta que ele me quer. Ele me quer viva-porém-morta. Eu me sinto terrivelmente fortalecida hoje. O fato de estar viva e em transformação, e o fato de eu ter uma mente consciente e ter mudanças de humor, e tudo isso estava se tornando um incômodo.”
  
Título original: The collector
Autor: John Fowles
Ano: 1963
Editora: Darkside books
Páginas: 343
               Frederick Clegg é um jovem solitário que sempre viveu com sua tia e sua prima, mas nunca conseguiu se relacionar muito bem com as outras pessoas. Como forma de escapismo pra essa solidão, ele se dedica ao colecionismo de borboletas e, também, alimentar seu amor platônico por Miranda, uma jovem estudante de artes que ele está sempre a vigiar, mesmo que nunca tenha tido nenhum contato com a garota. Quando Clegg ganha na loteria, ele decide usar o dinheiro para fazer um plano e, assim, conseguir conquistar a garota de seus sonhos.
               Ele imagina que não conseguiria chamar a atenção de Miranda por meios convencionais, então ele decide sequestrá-la e mantê-la em cativeiro para que ela possa conhecê-lo melhor e perceber que ele é um cara legal e que eles podem se dar bem juntos… um plano que só daria certo em sua cabeça.

O caçador e a borboleta

               A premissa de O colecionador é bem simples, mas é justamente nisso que está seu grande trunfo, porque apesar da historia se resumir a um sequestro, toda a construção e todos os detalhes fazem essa narrativa ser muito mais do que aparenta. É claro que é possível ler levando em conta somente a superfície, porém, o que torna o livro um clássico do seu gênero é a construção de personagens e todas as questões que o autor abre pra discussão e, ainda mais, a exibição de dois pontos de vista sobre a mesma história. Mas desenvolveremos isso melhor ao longo da resenha.
               Narrado em primeira pessoa e de uma maneira ágil e sem muita enrolação, vamos conhecer Frederick Clegg, um jovem adulto sem muitas habilidades sociais e que sempre teve uma vida pacata. Quando criança ele costumava ir pescar com o tio, esses contato com a natureza fez com que ele começasse a desenvolver seu interesse por borboletas, algo que iria acompanhar por toda sua vida, fazendo coleções e pesquisas sobre. Quando adulto ele começou a trabalhar na prefeitura, foi onde ele começou a observar Miranda, uma garota de 20 anos estudante de artes que morava em frente o prédio em que trabalhava. Apesar de desenvolver essa obsessão pela garota, ele sempre mantinha uma distancia: observava da janela, seguia ou buscava informações sobre ela, mas nunca interagia.
               Quando ganha na loteria e se vê sozinho, ele decide que é a hora de tentar se aproximar da garota que ele tanto admira, mas sabendo que ele dificilmente teria chances com ela em um ambiente real, ele decide montar um plano em que ela não tenha chances de ignorá-lo. Pra isso ele compra uma casa no interior, monta um cativeiro com diversos livros e coisas que possam interessar e sequestra Miranda, pois tendo ela como “convidada”, ela poderia conhecê-lo melhor e, consequentemente, se apaixonar por ele e viver felizes para sempre.


Creepy, eu? Imagina…

               Quando Miranda acorda num quarto totalmente desconhecido sendo observada por um estranho homem é que o livro de fato começa. Apesar de todo o livro se passar em um mesmo ambiente, o autor consegue manter a tensão e deixar o leitor interessado pra saber o que irá acontecer em seguida. E é nessa casa afastada de Londres que vamos conhecer e entender melhor os dois personagens.
               A grande força do livro está no embate psicológico entre Miranda e Clegg. Acho que não preciso falar que Clegg é um psicopata, né? Afinal, o simples fato de sequestrar alguém pra gerar uma Síndrome de Estocolmo é no mínimo doentio. Entretanto, é muito interessante ver a perspectiva dele sobre a situação, porque ele tem uma visão totalmente deturpada e realmente acredita naquilo. No seu ponto de vista, ele não está sequestrando, mas sim tendo a Miranda como uma convidada, afinal ele compra tudo que ela quiser e está sempre tratando ela bem, ele não a agride ou violenta fisicamente/sexualmente, ele dá atenção pra a moça e faz as coisas que ela pede, tudo isso porque ele a ama. Ou seja, em nenhum momento ele vê sua atitude como algo errado. Para o personagem, ele está fazendo algo que está no seu direito; as outras pessoas é que não compreendem a situação.
               Por outro lado, temos Miranda, uma jovem estudante de arte que repentinamente se vê em um cativeiro com um homem que diz que a sequestrou pra que ela pudesse conhecê-lo melhor. Percebendo a situação, aos poucos ela vai tentando entender melhor o ambiente e seu sequestrador para encontrar alguma forma de se libertar. Daí, ela passa a refletir não apenas sobre a prisão, mas também sobre Clegg, sua vida até ali e a sociedade como um todo.
               Apesar de Miranda estar nessa situação de prisioneira, é bem curioso perceber que ambos os personagens estão em situações de dominação e submissão. Do lado de Miranda é fácil perceber, afinal ela está sendo mantida em cativeiro por Clegg, ela acaba sendo submissa a ele por uma questão de força, o sequestrador priva ela de sua liberdade e não há nada que ela consiga fazer pra sair dessa relação de poder. Entretanto, conforme você lê o livro, você vai perceber que Clegg também é uma pessoa submissa, pois, com exceção de conseguir sua liberdade, Miranda exerce muito poder sobre seu sequestrador. Em qualquer diálogo entre os dois, fica claro que a garota está acima dele em quase todos os sentidos. O sarcasmo, o desprezo e o a superioridade dela sempre está ali, mostrando o quão patético ele é, mas quase nunca ele responde ou tenta contradizer, afinal, pra ele, Miranda é de fato alguém que está acima dele.
               Assim, muito do livro se desenvolve a partir desse conflito de poderes: Clegg utiliza da “força física” para exercer poder sobre Miranda e ela, por sua vez, utiliza de sua inteligência e da obsessão que o seu sequestrador tem por ela, para tentar convencê-lo ou manipulá-lo a fim de conseguir escapar.

                         

Perspectivas

Mesmo que subjetivamente, O colecionador é um livro que acaba discutindo e abordando diversas questões. Utilizando o sequestro como a linha narrativa, o autor constantemente está entrando em temas (política, arte, sociedade...) que são relevantes para a época em que o livro foi publicado. A primeira vista, pode parecer assuntos que estão ali apenas para dar mais veracidade a história, entretanto eles são mais do que meros detalhes, porque ao mesmo tempo em que esses temas vão sendo apresentados, os protagonistas (e as próprias questões) vão se tornando mais complexos, quer dizer, a história dos personagens não está limitada ao porão em que Miranda está presa.
Não vou me aprofundar muito nessas questões, afinal são muitos assuntos e boa parte deles são discutidos no posfácio, como a distinção social e o modo ela se aplica aos personagens, as questões políticas presentes na época em que o livro se passa e o posicionamento dos dois em relação a isso, como as obras lidas por Miranda no cativeiro (em especial Shakespeare) dialogam diretamente com a situação dela, etc. Entretanto vou entrar em uma questão que surgiu durante a leitura e não é muito abordada nos extras, o relacionamento abusivo dentro e fora do cativeiro, mas vamos por partes.
O livro é dividido em quatro capítulos, em cada uma deles vai ocorrer uma mudança de perspectiva. No início, vamos acompanhar a história pelos olhos de Clegg, já na segunda parte  vamos ler uma especie de diário em que Miranda mantinha durante seu tempo no cativeiro, permitindo ter essa mudança de perspectiva. Dessa forma, companhamos a mesma história tanto pelo ponto de vista do sequestrador quanto da vítima. Isso é bastante relevante por mostrar uma visão mais profunda da situação, em que podemos entender os sentimentos de ambos os lados e como a cabeça de cada personagem funciona, entretanto, algo que essa mudança de narrador também permite é a quebra de expectativa do leitor.
As duas primeiras partes do livro são as mais importantes, afinal as duas vão contar a mesma história apenas mudando o narrador. Quando você lê a segunda parte você já sabe exatamente o que vai acontecer, entretanto, não é porque você sabe como ela começa e termina que ela se torna repetitiva; pelo contrario, o autor te da a oportunidade de revisitar a história que você acabou de ler mas de uma maneira mais complexa e profunda. No primeiro capítulo, tudo que sabemos de Miranda é pela perspectiva de Clegg, que é obviamente uma visão totalmente deturpada, afinal ele é obcecado por ela. A figura da garota muitas vezes recebe uma conotação de divindade, afastando um pouco da essência humana. Quando chegamos no segundo capítulo, deixamos de ver Miranda pelos olhares platônicos e passamos a ver a humanidade, seus medos, sua preocupações, suas qualidades e defeitos, suas estrategias para dialogar com o sequestrador e, principalmente, conhecemos quem ela era antes de ser sequestrada. Então quando digo que existe essa quebra de expectativa é justamento por construirmos uma visão ao longo do primeiro capítulo, e quando chegamos no segundo percebemos que as coisas são bem diferentes do que aparentam em um primeiro momento, um exemplo disso, pelo menos na minha leitura, é que mesmo antes de ser mantida em cativeiro por Clegg, Miranda já estava em uma espécie de prisão.


Cativeiros

Apesar de não saber se foi uma escolha intencional do autor, afinal não é tão desenvolvido quanto os outros temas, o livro funciona muito bem como uma metáfora sobre relacionamentos abusivos e suas diversas formas.
Em um primeiro momento vamos ter contato com a “relação” entre Miranda e Clegg que, apesar de ser uma relação de submissão e força, é facilmente possível de comparar com o relacionamento de muitas pessoas. É claro que aqui partimos de um sequestro e não de uma “união  afetiva”, mas é justamente nisso em que está a triste ironia. Tudo que Clegg faz, pelo menos do seu ponto de vista, é por amor a Miranda, ou seja, não há motivos para ela fugir ou ficar triste com a situação, afinal tudo que ele faz é por amor e sempre tenta fazer de tudo pra agradá-la: compra livros, discos e materiais de pintura, cozinha e cuida dela, etc. Sendo assim, ele se sente no direito de mantê-la nesse cativeiro, algo bastante semelhante a relacionamentos que são pautados em poder, independente de qual seja, afinal não é incomum escutarmos casos de maridos que impedem a mulher de sair, de usar determinadas roupas, que limitam os contatos sociais ou, até mesmo, não deixam que ela trabalhe e tenha as próprias conquistas. Então por mais que possa não existir um cativeiro no sentido literal, ele não está limitado aos sequestros, porque tanto o sequestro quanto esses relacionamentos estão pautados na questão da posse: eu faço algo logo eu tenho direito a você, portanto, caso você seja ingrata e não me respeite eu posso usar minha força  pra demonstrar meu “amor”. Tanto é assim que algo bastante recorrente na leitura é a comparação que Miranda faz com a coleção de borboletas do seu sequestrador, afinal ela acaba sendo apenas mais uma espécie na coleção. Por mais que Clegg repita constantemente que ama Miranda, a verdade é que ele ama o sentimento de posse, ele não se preocupa com os sentimentos do outro, tanto que as borboletas da sua coleção estão mortas, o que ele deseja é ter algo pra admirar exclusivo pra ele, independente do “custo”.
Por outro lado, quando chegamos no segundo capítulo e temos contato com o diário de Miranda, vamos conhecer um pouco do seu passado e da sua vida fora do cativeiro. Antes de ser sequestrada, ela mantinha uma relação um tanto peculiar com um artista com o dobro de sua idade. Mesmo sendo uma relação bem diferente da que Clegg submete a ela, afinal ela não estava trancada em um porão com a liberdade privada, não deixava de ser abusiva, pelo fato de também existir uma relação de poder em que Miranda era inferiorizada, mas no lugar de força física e da privação o poder sobre que ela sofria era muito mais subjetivo, focado no psicológico.
Nesse diário, Miranda vai alternar a narrativa entre o que está acontecendo e lembranças ou coisas que ela gostaria de estar fazendo. Boa parte desses escritos acaba falando sobre G.P. um artista de aproximadamente quarenta anos que Miranda admira e mantêm uma certa convivência, mas apesar de ela sempre falar com um certo carinho sobre ele, você fica incomodado com a situação vivenciada pela personagem, porque ela descreve diversas situações em que é humilhada ou ofendida por ele, mas parece não perceber. Pelo fato dela olhar pra ele como uma espécie de tutor, o artista acaba exercendo grande poder sobre ela, então a todo o momento ela está recebendo criticas que acabam inferiorizando tanto seu trabalho quanto a sua própria identidade. Por mais que o artista esteja sempre pregando essas ideias de liberdade e de paz, no fundo ele acaba assumindo uma postura autoritária sobre Miranda. Sob o seu discurso de artista esclarecido, ele acaba ditando o que é boa arte ou não, a posição politica que a garota deve seguir ou, até mesmo, tentando limitar as amizades da moça. Ou seja, a todo momento ele acaba pisando nela pra criar essa relação de poder, ao passo que ela, sem perceber, acredita que ele a está ajudando, e fica se espelhando em suas atitudes e aceitando seus conselhos, mantendo essa relação abusiva em que ela não percebe.
Então, intencionalmente ou não, o livro acaba trabalhando essa ironia das prisões e do se sentir preso. Se por um lado Clegg possui Miranda como uma de suas borboletas, trancafiando-a em um espaço em que ele pode observar a sua beleza a qualquer momento que desejar. G.P. também faz isso, mas de uma maneira mais subjetiva, dando a falsa sensação de liberdade, mas sabendo que possui Miranda emocionalmente ao seu dispor.
Resumindo: tem filho da puta pra todo lado.
  

Devo começar minha coleção de borboletas?

Querido/a leitor/a, se você leu até aqui eu acredito que você já saiba a resposta.
O colecionador é um desses clássicos que sempre escutei falar sobre, mas nunca conseguia ler pelo fato de estar fora de catálogo, então foi uma grata surpresa quando a Darkside me enviou em parceria.
Mesmo sendo um livro dos anos sessenta e que trata de diversos temas de sua época, ele continua estranhamente atual, abrindo discussões que estão no nosso cotidiano. A partir de uma narrativa sobre sequestro, John Fowles consegue abordar muitos assuntos que vão se amarrando a linha principal e tornando tudo muito coeso e interessante. Foi um livro que me surpreendeu bastante, porque ele acaba entregando bem mais do que sua sinopse promete, então mesmo o livro tendo um inicio e um fim, ele continua abrindo portas quando o livro acaba. Seja fazendo você pensar mais sobre a questão psicológica dos personagens, ou fazendo essas divagações como eu fiz sobre relacionamento, ou, até mesmo, dando indicações de outras obras que dialogam com o livro, como no caso de A tempestade do Shakespeare (e outras obras/autores), que em diversos momentos é citada na leitura e Miranda utiliza para refletir sobre sua situação.
Além de todo o trabalho incrível da edição, algo que eu gostei muito foram os extras presentes. Logo no começo tem um prefácio do Stephen King que é um fã do livro (que recomendo deixar pra ler no final por ter alguns spoilers), já no posfácio teremos algumas paginas sobre as referencias artísticas de Fowles, então há uma listagem das obras citadas durante a narrativa e um pouco sobre elas, algo bem interessante pra despertar a curiosidade do leitor pra outras obras.
Então fica aqui a recomendação do Café, saia do cativeiro, busque a sua edição de O colecionador e depois pode voltar pra ele se quiser.

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