quinta-feira, 17 de maio de 2012

Resenha: Torrente, o braço tonto da lei (Torrente, el brazo tonto de la ley)


Você tem um herói? Ele é forte, inteligente, criativo? E se, além disso, ele fosse uma pessoa bem desagradável, você ainda o teria como um herói? Sim? Afinal, o Wolverine é antissocial e nem por isso deixamos de gostar dele, não é? Mas suponhamos que seu ídolo fosse, também, pouquíssimo higiênico, ele deixaria ser seu herói? Não? Afinal, o Dicaprio só toma dois banhos semanais e nem por isso é menos interessante, não é?  Mas e se seu herói, além de sujo e desagradável, fosse também machista, péssimo atirador, bêbado, racista, feio, inconsequente, e outras coisas que eu não poderia escrever sem que meu editor me censurasse; ele continuaria sendo seu herói? Mais que isso: ele continuaria sendo um herói?
Ah, não responda ainda, leitor. Não sem antes conhecer um pouco desse inusitado personagem...









Título original: Torrente, el brazo tonto de La ley
Lançamento: 1998 (Espanha)
Duração: 97 minutos
Direção: Santiago Segura






Torrente, o braço tonto da lei
Porco e herói

            Intencionalmente escroto, “Torrente” é uma das maiores bilheterias da Espanha e uma das melhores amostras de que o cinema absolutamente tosco, o trash, pode ser ótimo dentro de sua estética suja e grosseira. Influenciado por “O dia da besta”, o filme foge de qualquer clichê americanizado sobre policiais, protagonistas, piadas prontas ou roteiros, exibindo toda a força de um cinema bem feito, existente foras das hegemonias tradicionais.

Qual é a ocorrência?

            Torrente, um policial corrupto, de valores morais questionáveis, divide a vida com seu pai num apartamento moribundo nos subúrbios de Madri. Quando uma nova família chega à vizinhança, ele se aproxima do jovem da casa tendo em vista sua prima ninfomaníaca, Amparita. Ao se envolver mais com o rapaz e com o bairro como um todo, Torrente descobre movimentações criminosas de tráfico de drogas relacionadas a um restaurante estrangeiro.

Clichês que você vai encontrar:

Estrangeiros marginalizados. Mensagens edificantes. Personagens caricatos.

Tão ruim que é bom

O filme se constrói sobre a relação de Torrente com seu vizinho e as peripécias de ambos na investigação das atividades ilícitas do bairro. No meio disso, ambos vão se envolvendo com uma rede grande de criminosos sem que se deem conta, sendo cada vez mais impelidos ao centro dela.
Para quem viu o filme por dois minutos que seja, fica um tanto óbvio de dizer, mas direi ainda assim: o personagem-protagonista é o maior atrativo do filme. Torrente é um porco completo. E o mais curioso disso: é tão escroto que quanto pior se mostra mais passamos a amá-lo e a aceitar suas ações. Esse fato levanta no mínimo uma questão: afinal, por que nos filiamos às pessoas apesar de seus defeitos? Por que nos atraímos não só pela virtude, mas também pelos vícios das almas alheias?
Sinceramente, não sei, porém talvez entender isso ajude a explicar o comportamento eleitoral de muita gente. Seja como for, qualquer esperança de ver o homem se redimir com o passar do tempo e se enquadrar nos estereótipos conhecidos desaparece. No fim do filme não ficam dúvidas sobre a moral do personagem: ela é torta e absolutamente torta. Essa constatação, contudo, não faz com que o condenemos, desejando que ele sofra pelas consequências de seus atos, mas que consideremos, durante uns dois, três segundos ou menos, que ele, no fundo, mas bem no fundo (bem no fundo mesmo) até pode ser uma boa pessoa.

Não é Charles Bronson


Se pensarmos em termos históricos, notaremos que, em geral, somos todos influenciados pelo cinema americano. Depois da Segunda Guerra os filhos do tio Sam enriqueceram gradativamente e, não contentes em dominar tudo por meio das armas, conquistaram outros povos por meio da cultura. Assim, não é estranho que muitos de nossos referenciais estéticos (mas muitos mesmo) venham lá da terra do hambúrguer com fritas, por meio dos filmes estadunidenses. Quando esperamos que o herói seja um sujeito um pouco desencontrado, mas que, em seguida, arruma um modo próprio de mudar a realidade, enfrenta revezes, passa por um período de queda e depois volta ainda mais convicto de seus ideais tendo encontrado seu lugar no mundo, não estamos esperando por um herói qualquer, mas por um herói norte americano, seja ele estadunidense ou não. Torrente, felizmente, não é assim. Ele faz parte de um grupo muito particular de personagens globalizados que se constrói por referenciais regionais, sendo construído pela cultura de seu país sem deixar de ter traços universais que tornem o gordinho interessante e carismático. Isso, claro, mesmo sendo também um porco.
Do começo ao fim de “O braço tonto da lei”, por mais que existam (obviamente) concessões e clichês, somos levados para um mundo onde os referenciais que estamos acostumados não existem, nem para que seja para serem subvertidos. Eles sequer são considerados. Não há cercas brancas, mocinha loira e pura que se guarda para o protagonista, um herói com ideais, pessoas boas para proteger, nada disso. A Madri de Torrente é engordurada, corrupta e conformada assim como seus personagens. Talvez até valha à pena lutar por alguma coisa, mas para que é que eu vou me meter nessas coisas se não for para ganhar algo?

*

No geral a história é bastante simples, transmitindo até a (falsa) impressão de que o diretor não tem o controle do enredo. Durante algum tempo somos levados pela vida medíocre de Torrente achando que, tal como ela, o filme será vagante e indefinido, encerrando-se a qualquer momento de maneira tosca. Pois embora aconteçam coisas grandes ao redor do personagem, vemos que ele não consegue tomar as rédeas do curso dos fatos, apenas os influenciando timidamente. Com efeito, a certa altura da trama passamos a duvidar que ela vá se finalizar de um modo satisfatório, afinal (pode-se pensar), não se trata de Charles Bronson, mas de Santiago Segura. Todavia, inesperadamente nos deparamos com resoluções inteligentes, perfeitamente condizentes com as ações toscas do policial. O diretor consegue usar artificialidade na dose certa, sem desmoralizar a trama para uma sequencia tosca de ação. Mesmo quando surgem coisas impossíveis, verdadeiras marmeladas, elas soam condizentes com o que vem sido mostrado até então.
Assim, Torrente não vence porque muda, porque encontra seu lugar no mundo ou se descobre um herói, mas por sorte, pela ajuda de seus companheiros, pelo resultado fortuito de suas ações e uma dose mínima de mérito. O personagem não transforma, não cresce e o melhor de tudo: não pretende nos dar uma lição de moral ao fim do filme sobre o que devemos ser.

Devo parar minha vida em nome da lei?

Sim, não precisa ser em nome da lei, mas em nome da diversão. Deixe tudo o que está fazendo e vá assistir o filme. “Torrente” não é profundo, não tem grandes questões por detrás, sequer precisaria disso. É puro entretenimento burro, sujo, politicamente incorreto e ensebado.
Num tempo em que acreditamos menos em valores hipócritas de heróis carregando as bandeiras de seus respectivos países, o homenzinho é um sucesso, é o pior oportunista no momento e circunstancia certa. Nada de superpoderes, nada de coisas extraordinárias além do absurdo normal do mundo. 
O filme já chegou até sua quarta versão e vem criando uma legião de fãs (na qual eu me incluo doravante). Enquanto nós brasileiros ainda brincamos de Capitão Nascimento e os americanos de Thor, os espanhóis amadureceram, foram à luta e viram que o mundo é feito de “Torrentes”: pessoas pequenas com suas circunstancias pequenas, levadas pela vida sem muito controle do rumo que, por vezes, ela toma. É quase como se o filme nos sussurrasse a triste verdade:
- O mundo ideal está morto, crianças, não virão salvadores - ou vingadores - para nos redimir. Agora façam um favor a si: cresçam.

Trailer:


2 comentários:

  1. Nunca tinha ouvido falar, mas agora sou obrigado a dar uma olhada. Deve ser muito trash. 8)

    Muito obrigado pela dica. Abração.

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  2. cara, assista sim, eu achei muito legal, quero muito ver os outros.

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