quinta-feira, 15 de março de 2012

Resenha: Trailer Park of Terror


Sim, eles são jovens e “rebeldes”. Yes, eles param em um posto antes de seguir viagem. Oui, avisam a eles que devem evitar o atalho e, evidentemente, eles não obedecem. Sí, o carro quebra. Ja, eles estão prestes a ser massacrados. , você já deve ter visto varios filmes assim, mas o que você acha de acrescentarmos vários zumbis exóticos - um guitarrista, uma gostosa simpática que perde a pele do rosto, uma expert em massagem oriental e um açougueiro  que no meio disso tentam filmar um porn?
Não, não usamos drogas. Esse filme realmente existe e ele esta aqui no Café com Tripas. A resenha de hoje é do filme “Trailer Park of Terror”, uma obra que mescla velhos clichês, elementos inusitadas e uma pitada de critica à indiferença moral (fica nossas duvidas se essas criticas foram intencionais ou não).





Título original: Trailer park of terror
Lançamento: 2008 (EUA)
Duração: 91 minutos
Direção: Steven Goldmann






Trailer park terror
Massacrando uma boa idéia

Sabe aquele filme que parece bom no anúncio, mas que quando assistido é só razoável? Pois é, “Trailer park” tem qualquer coisa disso. Ele é construído sobre uma idéia excelente e durante uns vinte minutos te convence de que é ótimo, mas passado isso, abre mão de aprofundar os temas que suscita para aderir à violência sem sentido, nos deixando decepcionados e sem respostas. Daí por diante só seguem banalidades: cabeças arrancadas, minas explosivas, gordas assassinas, enfim, todos os elementos familiares do trash.

A morte espreita

O filme narra à história de um grupo de jovens infratores que viaja em busca de reabilitação. Após um acidente, eles procuram abrigo num antigo parque de trailers onde, anos antes, havia ocorrido um massacre que aparentemente está prestes a se repetir.

Fantasmas se divertem

            Trailer park se constrói a partir da relação desses jovens inconseqüentes com o mundo velho e violento que descobrem. E o que produziu esse mundo? O seguinte: Norma, uma prostituta cansada de ter sua vida barrada pelas pessoas ao redor, decide, após um incidente, matar todos os que a atrapalharam com balas de grosso calibre, fósforo e gás butano, criando assim o lugarzinho assombrado onde ocorre o filme. A partir disso, temos duas vertentes distintas na história: aquela que mostra a mocidade perdida que chegou ao parque e está prestes a ser trucidada e, além dela, a que exibe os resultados do massacre ocorrido anteriormente, na forma de mortos-vivos atormentados querendo brincar. Obviamente, há um ponto em que ambas confluem num espumoso banho de sangue com sabonete de banha e xampu de vísceras, porém, esse é o aspecto menos interessante do filme. Ignorem, pois, as manchas no tapete, a saliência estranha na terra do jardim ou o cão que desapareceu, pois pouco disso importa dada uma simples razão: na história do cinema, relatar a história de uma juventude tola que lida com forças desconhecidas e vai sofrendo terríveis conseqüências é um clichê jurássico. Já vimos isso muitas e muitas vezes em pânico no verão passado. Sacou?


Quanto aos jovens há algo interessante de apontar. Se de um lado temos um mundo injusto e impiedoso, de outro temos essa juventude desajustada e inconsequente que, sem conseguir descobrir como se inserir nesse mundo sem ceder aos ditames dele, transgride as regras estabelecidas, porém não por rebeldia, mas porque se sujeitar à mediocridade da sociedade como está lhe parece mais terrível do que viver à margem dela. Entrar no mundo significa ou tolerar o mau que há nele ou fazer parte desse mesmo mau. Nesse ponto, quando há tentativas de cooptar a moçada para o time dos conformados (o pastor que comanda a viajem e tenta reabilitá-los), elas soam patéticas e desesperadas, como quem busca, ao convencer o outro, convencer a si da própria verdade que sustenta.
De que serve a fé num mundo em que não há espaço para o bem e esperança? Para que nos sintamos diferentes de algum modo daqueles que fazem coisas de que não somos moralmente capazes? Para nos conformar na mediocridade da vida? Talvez nenhuma dessas coisas, talvez um pouco de cada uma delas.

 *

            Para além dos elementos gore e trash do filme, existe um pequeno questionamento a respeito da responsabilidade que temos uns com os outros, mostrado na relação entre Norma e os habitantes do parque. Contextualizando o que digo, lembremos o que disse certa vez Ian Kershaw, um dos maiores historiadores da Segunda Guerra: “A estrada para Auschwitz foi construída com ódio, mas pavimentada pela indiferença”, ou seja, o que levou o nazismo a produzir o Holocausto não foi somente uma atitude de ódio contra os judeus e outros povos discriminados, mas também de indiferença dos alemães uns com os outros, permitindo que o nazismo ganhasse força e se tornasse incontrolável. Já quanto a “Trailer park”, ele segue em parte por esse caminho, nos lembrando de que a apatia e a indiferença são tão poderosas quanto o próprio mau, pois permitem que ele seja instaurado e tolerado. Quando vemos Norma tendo seus sonhos destroçados e se tornando um monstro, nos perguntamos sobre quem é o verdadeiro responsável pelo que ela fez e se transformou. Afinal, se uma pessoa nunca teve chance de fugir ao que lhe foi imposto, ela é mesmo responsável por seus atos?
Se com “O pequeno príncipe” aprendemos que somos responsáveis por quem cativamos, com “Trailer park” é justamente o contrário: até que ponto nós devemos nos responsabilizar por quem odiamos ou, até mesmo, por quem ignoramos? Somos culpados pelos suicidas? Por ataques contra nordestinos? Pelos depressivos? Pobres?
Se sua resposta for não, leitor, talvez você precise assistir “Trailer park”.

Sexo, sangue e rock’n roll

O filme carrega a virtude de ser curto, o que impede que venha a ser pior do que poderia. Não é que seja péssimo, mas por desvirtuar sua idéia original para recair nos velhos massacres tão conhecidos por nós, fãs do trash, acaba se banalizando e virando mais um filme cheio de violência e pouco conteúdo. A obra é bem voltada para o gore - uma pele arrancada aqui, um canibalismo ali - mas nada muito extremo.
No entanto, o que é digno de menção como um trunfo do filme, é a trilha sonora, muito bem colocada e escolhida; composta por rock pesado pra agitar nosso espírito e fazer com que as machadadas pareçam ainda melhores.


O filme me merece?

            Não. Se quiser questionamentos leia Kershaw, se quiser melancolia leia Saint-Exupéry e se quiser diversão, leia Café com Tripas. Simples assim.

Trailer:

            



2 comentários:

  1. Ah, valeu que tenha gostado. Deu um trabalhão escrever esse texto, pelo que lembro. Sinta-se em casa para sugerir, criticar e comentar. Um abraço.

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